segunda-feira, 28 de julho de 2008

O meu e o pneumotórax do Bandeira

"Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos. A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.
..........................................................................
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o
[pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino."



Esse poema de Manuel Bandeira sempre me angustiou. Bandeira aos 14, 15 anos traduzia a Ciropédia diretamente do grego... eu conheci pneumotórax de Bandeira lá pelos 14, 15 anos com os primeiros professores de literatura do que hoje é o ensino médio.

Devido à minha leitura desse poema sempre achei que pneumotórax fosse um tratamento, uma solução que deveriam ter tentado para sanarem o terrível sofrimento de Bandeira e sua relação com seus pulmões. Sofria por Bandeira não poder ter sido tratado como desejava, por sua crença em achar que sempre morreria jovem e seu medo imenso diante da vida. Jamais associei o título engraçado do poema de Bandeira a uma doença dos pulmões, mais especificamente, na pleura.

Pois bem, dia 22 de julho, terça-feira, internei-me em um hospital para realizar uma histerectomia total por videolaparoscopia cujo procedimento necessita de anestesia geral. Assim, que o processo anestésico foi iniciado enchi como um balão de ar: peito, tórax, pescoço, rosto... Acordei com uma sensação de afogamento terrível e por mais que puxasse o ar, este não era capaz de encher os meus pulmões.

Não sei se devido ao fato de fumar (vício que, aviso aos amigos, custe-me o que custar, foi cessado após este episódio), não sei se devido ao processo anestésico (estou com muitas dores na laringe, faringe, falo com uma enorme rouquidão como os mafiosos dos filmes holywoodianos), mas o fato é que um cirurgião de tórax teve de incursionar um dreno ao longo do meu peito para drenar ar e líquido acumulados no meu pulmão direito. Fiquei três dias na UTI, saí sábado à noite e estou sendo medicada. Volto ao médico dia 5 para novas avaliações. Até lá muita cama e drogas pesadas, sem sexo e nem rock and roll.

Não quero falar das dores físicas nem emocionais recentes. Estou muito manteiga derretida e um simples 'olá' de todos que amo me emociona.

Sempre soube que somos muito provisórios, poeira boba nessa estratosfera. Mas fiquei pensando que seria chato demais não conviver mais com todos aqueles que amo, não ter o direito de ver minha filhota crescer e amadurecer, ou de dizer ao cabeça dura do meu foco de afetos que não sou tresloucada e que ele de fato é especial e isso não tem nada de idealização.

Fiquei pensando se de fato como disse em A cozinha de minha avó "a partida é sempre uma meia morte..." Creio que não. As partidas podem ter retornos, a morte não. Ela é inexorável, absoluta.


Viver é bom, tive medo de morrer sim, pois ainda não vivi as coisas que creio mereça viver. Isso não tem nada a ver com iates, mansãos, viagens caras, vida nababesca, mas também não tem relação com a bobeira lair ribeiriana de "Ah! se eu pudesse viver mais iria andar mais descalço " e toda a infindável e irritante bobageira que circula travestida de pseudo auto-ajuda pela rede. Eu não gosto de andar descalça e acho que sei valorizar o que deve ser valorizado.

Esqueçam, vocês sabem que não creio em milagres, que minha religiosidade anda arisca, que acredito em mim, em você, em nós, na força do povo (se este quer e se faz povo).

Não. Também não caí no outro extremo dos céticos e cínicos, ao estilo do fantástico Remy de "Les Invasions barbares". Aqueles que me conhecem também sabem que não sei ser cínica, apesar de admirar toda a boa e refinada ironia, matéria-prima do bom cinismo, sou péssima dissimuladora e para alguns até mesmo uma figura ingênua, doce.

Não me arrependo de nada que fiz e quero ter tempo de fazer mais da minha vida com as pessoas que amo, puro egoísmo mesmo. Pretendo viver todas as boas emoções que me cabem neste cadinho chamado existência. Vou fazer o possível naquilo que posso administrar dela para que seja plena de ar para ser sorvido na boa corrida, nos suspiros de prazer e tesão, no palpitar das boas surpresas, em todos os abraços apertados que puder dar quando esta dor insuportável for embora. Assim, bem pragmática, com ou sem tango argentino comunico, aos amigos e amores, que continuo viva.

30 – A Dama do Metrô.



Selene se aborrecia. Quantas vezes tivera de contar o que lhe acontecerá e, quantas já dissera que não se importava, que estava tudo bem, que não queria saber quem fora ou por que fora. Fisicamente nada lhe acontecera, e, também reconhecia, que interiormente estava tudo bem. Então porque as pessoas têm que ficar fuçando o alheio. Querendo saber isso e aquilo? Seu chefe por exemplo. Queria por que queria que ela lhe dissesse como fora cair numa armadilha dessas? Que se fosse com ele colocaria os culpados na cadeia ou, então, processava por danos físicos e morais. Não sabia todos os detalhes, dizia, para não se comprometer mais ainda.

Enquanto tomava o café na lanchonete do prédio, viu Aureliano e Malu entrarem. Ali estavam os culpados, falou seu intimo, os culpados que revelaram a ela uma parte que ela não conhecia. Quanto a isso poderia dizer até que era grata a eles, colocaram a flor da pele o escondido, o sórdido prazer de ser levada a se satisfazer com o mistério, com o perigoso, com a fantasia roçando o abismo do prazer. Sabia que a partir daquele dia em diante, se reconhecia outra pessoa. Se dissesse que estava contente consigo mesma, ninguém acreditaria, a julgariam louca, que precisava de psiquiatra. Talvez até estivesse, mas era uma loucura saudável, com uma pitada de masoquismo. Terminou seu café, colocou a xícara no balcão e passou rente aos dois, e, sorrindo cumprimentou:

- Olá, como vão os dois. Vendo vocês dois juntos até parecem que estão de namoro.

Viu no olhar o assombro dos dois. Malu e Aureliano realmente não esperavam tal atitude dela, mas também não podiam deixar que Selene suspeitasse deles, por isso, com um sorriso desconcertante, retribuíram o cumprimento da melhor maneira possível. Caso Selene desconfiasse deles, não veria toda sorridente cumprimentá-los. Concluíram então que Selene nada suspeitava deles. Sorriram um para outro satisfeito. No entanto Selene tinha certeza, principalmente depois do seu cumprimento ao vê-los surpreso com sua audácia.

- Realmente foram eles e, não os culpo, quiseram vingança, conseguiram, mas quem saiu ganhando foi eu e não eles. Eles vão continuar na mesma vidinha fútil de sempre, enquanto eu ganhei com a descoberta de mim mesmo, com a descoberta do meu interior.

Rodou a enorme cadeira e descortinou a sua frente, a cidade, a enorme cidade que, do vigésimo segundo andar, dava a ela uma ampla visão de edifícios e mais edifícios. Gostava da cidade, gostava de vê-la aos seus pés, dando-lhe o poder que não tinha. Fazendo-a se sentir superior humilhando quem a humilhava. Levando a mente num ponto de equilíbrio relaxado, começou a retroceder o pensamento até os acontecimentos fatídico que revelou a ela uma outra mulher.

23.11.06
pastorelli

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Loucura

Quando te vi
pela primeira vez
- meus olhos
começaram a existir

: arranquei-os
pra enxergar melhor.

wilson guanais

domingo, 20 de julho de 2008

29 – A Dama do Metrô.


Não adianta gritar mais, pensou. Ninguém me ouvira, disse para si mesma. Apesar de estar com a boca meio amordaçada, Selene sentia o pescoço dolorido de tanto virar a cabeça de um lado para outro. Sonolenta, os braços adormecidos, as pernas bambas, conseguia ainda ter alguma noção. Há quanto tempo estava ali? Não sabia. Com os olhos vendados e a boca amordaçada pouca coisa dava para perceber. Das coxas notava um líquido que escorria. Fora estuprada, pensou ao reavivar um pouco a mente. Sim, foi isso, estuprada.

Completamente nua, amarrada na cama, pelo menos parecia ser uma cama, com os pulsos e os tornozelos amarrados, sem conseguir se mexer, sentiu o peso de um corpo penetrando-a, a principio lentamente, depois com violência que chegava as raias da loucura. Ao mesmo tempo uma boca macia de lábios suaves, úmidos roçava seu rosto, seus lábios, pescoço, seios sussurrando palavras desconexas que a fazia se sentir excitada. Sua mente num marasmo de lucidez e sombras, se esforçava para não perder os sentidos. Mas havia momentos que Selene apagava e ela era tragada pela desconhecido torpor. Num instante de lucidez, percebeu que fora virada de bruços e estava sendo penetrada, mas que estranho, não era por homem, e, sim por mulher. Travesti? Não isso não, tentou gritar. Foi então que sentiu um pênis de borracha levando-a gozar mais uma vez.
Uma aragem fina, arrepiou sua pele. Estava com frio. Tentou se cobrir mas não achou nada. Numa lucidez instantânea, Selene notou que estava deitada em algo gelado, parecendo cimento. Seria calçada? Um banco de praça? Não teve tempo em responder. Caiu novamente na sonolência do sono.
Acordou com um bafo quente e fedido em seu pescoço. Empurrou a cara barbuda que espetava seus seios nus. Conseguiu sair debaixo de um corpo magro, nu, fedido, molambento. A cabeça doía. Como fora parar ali, no meio da praça, nua, ao lado de um mendigo que nunca vira, abraçado a ela e também nu? Meus Deus, o maldito do mendigo transara com ela aproveitando que estava desacordada. Chorando desesperadamente, se ajoelhou ao lado do mendigo que, assustado não sabia o que fazer.
Tempos depois, se perguntavam, porque não quisera dar queixa, não sabia o que dizer, isto é, sabia sim, mas não queria quebrar o prazer, pois apesar de ter reconhecido o fato como uma vingança bem feita, e, o pior sabia quem fora o autor, ou autores, ela tinha gostado.
21.11.06
pastorelli

quarta-feira, 16 de julho de 2008

etílico
maurício rosa

evito que me vejas quando a lua
vomita o desjejum na pradaria
porque na face trago a marca fria
da noite mal dormida e passaria
a impressão de arder em sofrimento...
confesso, as olheiras evidentes,
o cabisbaixo olhar no chão fincado
e a angústia amarga que estás vendo
não se traduzem por amor rompido
carência, solidão, saudade, olvido,
é que exagerei no vinho e visto
a dor de ter me excedido, amigo.
perdoa se faltei ao compromisso:
amanhã darei vida ao corpo antigo!

sábado, 12 de julho de 2008

28 – A Dama do Metrô.


Malu olhou pela janela. Plena primavera, chovia, a temperatura estava baixa, parecia inverno. Como poderia dar o troco? E por que queria ela castigar Selene? Não sabia, eram perguntas que lhe surgiam aleatoriamente não significando nada. Apenas achava injusto o que Selene fizera. Como Andreus, o diretor não lhe dera retorno, resolveu almoçar. Pegou a bolsa e se dirigiu ao elevador. Qual não foi sua surpresa ao ver Aureliano.
- Ola, tudo bem?
- O que você acha?
- Que está tudo bem.
- E como pode estar tudo bem com o que me aconteceu?
- Bom, isso é algo que passará e, um dia, você lembrará como uma piada.
- É fácil falar. Não foi com você que aconteceu, não é?
Disse meio grosseiramente e desceu do elevador em passos largos. Se tivesse agido de outra maneira talvez nada teria acontecido como aconteceu. Mas o que fazer quando as ações tomam conta do ser sem pensar nas conseqüências? Agora se achava na obrigação em dar apoio a Aureliano e levantar a moral dele. Bom no momento nada poderia fazer, a não ser, almoçar. Entrou no restaurante e, achou estranho ao ver Aureliano almoçando sozinho numa mesa de canto. Fez seu prato e se dirigiu a onde ele estava.
- Posso me sentar com você?
- Até parece que tem só esse lugar, disse ríspido olhando para os lados.
- Preciso falar com você.
- Ah! é. Ou está me seguindo?
- Escuta, você tomou “Boa Noite Cinderela”, falou rapidamente e sentou sem esperar a permissão dele.
- O que?
- É, “Boa Noite Cinderela”, nunca ouviu falar?
- Sim, já ouvi, mas pensei que fosse boato.
- E eu sei quem te deu.
- Você é lógico.
- Não, claro que não.
- Então como você explica de eu estar nu no estacionamento sem saber o que tinha acontecido?
- Eu garanto que não fui, apenas queria uma aventura com você.
- Conheço sua fama, me falaram dela.
- Eu sei do boato que corre sobre mim. Por isso tomei todas as precauções possíveis para não ser pega em flagrante. Afinal, tenho que manter o mistério sobre mim. Sem um boato que lhe faça a fama, você desaparece, será um ninguém. Entende?
- Não entendo e, nem quero entender.
- Foi a Selene.
- O que? A Selene. Por que você acha que foi ela?
- Depois que sai, deixei você se arrumando no banheiro, vi um vulto entrando e, pela aparência era ela. Viu quando entramos e estava apenas esperando eu sair para dar o bote.
- E por que ela faria isso?
- Vingança.
- Vingança?
- É, vingança por ter tirado você dos braços dela.
- E como sabe disso.
- Bom, não dá para explicar, mas uma mulher sabe o que a outra tem em mente quando o assunto é homem.
- Obrigado, isso me deixa lisonjeado.
- Ela entrou, deu Boa Noite Cinderela e se aproveitou de você.
- Agora você está me chamando de otário, é?
- Não, não estou, você não estava em condições nenhuma de reagir. Estava mais para passivo do que ativo.
- Mas você gostou, disse olhando-a direto nos olhos.
- Claro, se não estaria aqui me preocupando com você.
- Bom... Não sei se devo falar... Mas é...
- Diga...
- Promete guardar segredo?
- Segredo, se é segredo para o seu bem até que posso, mas lembre se é segredo por que me contar?
- É que quero, como você sabe quem foi que me fez isso...
- Acho que só estou querendo levantar a tua moral.
- Ok, agradeço, mas escuta.
- Pode dizer.
- Lembro de todos os detalhes da nossa... Bem, você sabe...
- Da nossa transa, diga logo, não fique com rodeios.
- Está bem, da nossa transa. E posso lhe dizer que gostei muito.
- Então quer dizer que fingiu estar completamente bêbado.
- Sim e não, isto é, estava bêbado, mas não tanto que pudesse perder a memória. E quando você me deixou, fiquei um tempo parado curtindo todo aquele momento. E foi aí que a Selene entrou.
- O que?
- E posso te garantir que ela não estava com nenhum copo na mão.
- E por que você não revelou esse detalhe.
- Por dois motivos: primeiro, revelaria sua presença e, segundo, não queria passar por bobo ou idiota, sei lá o que. Entende?
- Entendo. Então como e quando ela lhe deu a bebida?
- Talvez, no momento em que me distrai, pois estivemos sentados à mesa, não lembra?
- Lembro. Então só pode ser nesse momento.
- E só fui me apagar quando ela entrou no banheiro, porque depois disso não lembro, realmente de mais nada.
- E o que você vai fazer a respeito.
- Do que?
- Disso tudo.
- Não sei, talvez nada.
- Não vai se vingar da Selene?
- Não sei...


16.11.06
pastorelli

sexta-feira, 11 de julho de 2008

sem título

nem só de luares um bardo precisa.
às vezes de cantos sofreres e odores
carece e de sonhos e vagos amores
da saga mundana que a dor finaliza!
de acasos e brisas também que o ofício
costura silêncios num plano irreal
os vãos do poeta dormitam no vício
e seus desenganos o elevam ao Céu!
açoites e risos misturam se o verso
vazio se torna, distante ou banal:
a cruz alimenta seu rio e empresta
saber aos dizeres do velho ancestral:
“além dos quereres humanos a força
senhora do mundo se assenta no caos!”.