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sexta-feira, 24 de julho de 2009

uma palavra

para Rodrigo de Souza Leão,
o “Seomario”, em memória.



a todo instante
cotidianamente
pichada nas paredes
dos velhos edifícios
do centro da cidade
nos anúncios luminosos
nas vitrines
nas esquinas
desenhada sobre maços de cigarros
rabiscada nos muros
sussurrada nos bares
escorrendo nos telhados
caída no adro
entre os mendigos
famintos de humanidade
uma palavra se insinua

ecoa na música do rádio
aloja-se sorrateiramente
explode em poemas
eleva-se em uma prece
invade corredores
salas lares alcovas
as celas das cadeias
claustros prostíbulos
todos os espaços
públicos e privados

é a pedra de toque
dos discursos políticos
é a máxima expressão de ternura
nas promessas dos amantes
revigora as esperanças
é bálsamo para as angústias
compromisso nos armistícios
é cura de todos os vícios
é imprescindível pra paz
é inevitável nos livros

não obstante
ninguém sabe
a quem pertence
ninguém sabe
a que exatamente se destina
ninguém sabe
o que significa
conquanto ecoe
nos vales e desfiladeiros
conquanto suba montanhas
inunde oceanos
envolva o mundo
em um manto de ilusão

os cegos podem lê-la
os surdos ouvi-la
gritam-na os mudos
mas talvez somente os loucos
possam porém elucidá-la
compreendê-la integralmente
sem máculas
sem banalizá-la
despida de egoísmo e preconceitos

não somos sequer capazes de imaginar
as conseqüências da sua exata compreensão
libertaríamos-nos da escuridão primitiva?
renovaríamos a nossa herança anímica?
condenar-nos-íamos ao caos?

quem a terá criado?
que deus deusa anjo
incrustou-a no nosso imaginário
como se um dia pudesse ser exercida
independente de qualquer paixão?
independente de idolatrias?
como se fosse coisa mansa
indolor
lume na escuridão?
não como um fardo incômodo
não como obrigação
não como é entendida
descolada da razão?

que maldição a acompanha
dos tempos pré-históricos aos dias atuais
para que em seu nome se façam guerras
cometam-se crimes
pratique-se a violência?
como se tudo isso não a negasse
como se tudo isso não fosse antônimo

talvez devêssemos esquecê-la
arrancá-la dos dicionários
dos textos sagrados
das literaturas
apagá-la das canções
dos poemas
lixá-la das pichações
das pedras entalhadas
dos desenhos
dos corações
da história das civilizações

atravessemos a porta da fantasia
quiçá encontremos
um tempo singular
no qual as palavras estejam virgens
e que a palavra omitida
jamais seja tomada
como sinônimo de submissão
jamais seja usada
para justificar a fera que ainda vive encoberta
nos nossos inconscientes
para abonar os nossos primitivos temores
para desculpar o nosso apetite
de vida
e de morte

mas o que seríamos se isso fosse possível?
seres divinos?
cisnes?
humanos?
super-homens?
novas consciências?
habitantes do tédio?

e assim como ela
uma palavra
outra palavra
viria para substituí-la
até que venha o absoluto não ser
o inconcebível nada
que inevitavelmente
virá.


Fred Matos

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Fado Antigo

Estava procurando um fado antigo, mas daqueles bem antigos mesmo, com chiado e tudo, e olha só o que encontrei:


fado antigo
Fred Matos


ouço, se não me traem os sentidos,
soando das cordilheiras líquidas do mar,
cordas de aço cantando um fado antigo.

ouço mulheres chorando a saudade dos filhos,
dos amantes, dos maridos;
marinheiros que nunca vão voltar.

na esperança de que voltem,
trocam as flores secas das grinaldas
as noivas que nunca vão casar.

são vozes gregas, fenícias, portuguesas...
que em comum toam, com a mesma melancolia,
a dor de quem vive só; só por esperar.


publicado em "Eu, Meu Outro"
Editora Poesia Diária
Maio/1999


Esse vai para a "tag" serendipidade.


Ole

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Pacto (Fred Matos)

pacto

falemos sobre as pequenas coisas que nos cercam
falemos vagarosamente para que durem
um mínimo instante além do tempo que as fitamos

para as grandes coisas
já dedicamos toda a nossa pressa
e ela não foi capaz de nos dar conforto
nem de solucionar os graves problemas humanos

dediquemos às pequenas coisas um olhar preguiçoso

melhor ainda

façamos um pacto de silêncio enquanto caminhamos
de mãos dadas como Ricardo e Lídia à beira do riacho
onde eu nunca me havia dado conta
dos pés de avenca na sombra amarela do Ipê

façamos um pacto de silêncio para ouvir os pássaros
façamos um pacto de silêncio para ouvir as águas
e os seixos que rolam no seu leito

façamos silêncio para ouvir o vento
façamos silêncio porque as palavras estão gastas
como os seixos que rolam ao sabor das circunstâncias.

Fred Matos
Feb 26, 2005