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sábado, 17 de maio de 2008

A cozinha de minha avó

Julho era muito curto e só viajamos se algo de muito ruim acontecesse. Dezembro era o mês favorito, era irmão de janeiro e nos tempos de criança, ainda carregávamos fevereiro junto. Era permitido ‘comer’ uns dias de escola, por isso, nem dava bola se a professora reclamasse. Gostava da sala de aula, sentia saudades dos amigos e trazia um sotaque diferente. Tinha desculpas (das boas) pra tudo isso. Estava na Bahia:

— É longe professora, viagem cara, de dias....

No ônibus já ia sentindo o cheiro.

Tem perfume de infância a cozinha de minha avó: carne de sol espetada sobre a brasa, outras penduradas por cima do fogão à lenha. Moscas rodeavam tudo. Um zumbido surdo, constante. Não punha reparo, só as mãozinhas ágeis davam conta da função: espantar as ditas pra fazer festa pro milho, amarelo bem claro, estourando, tostando minhas mãos gulosas. Os tomates cerejas da salada rala, rala como o verde da vida sertaneja, feijão de corda, farinha e arroz papa. À tarde: beiju, bolacha d’água e café torrado. A noite caía cedo e o tio mais moço, o mais lindo de todos, contava causos, acocorado no alpendre da casa de taipa.

Todos os dias eram uma festa sem fim: Acompanhar os passos largos de tio Pedro, seguindo determinado pra roça, feliz, com as chuvas de janeiro. Olhava os brotos de feijão e colhia umas bagas pro almoço. Conferia se a mandioca daria farinha farta pra pôr no silo que aguardava, pacientemente, na sala, até ficar de novo cheio até o teto. Silo que ouvia a festa de toda a vizinhança que corria pra Casa de farinha.

Era o tempo das rezas, dos maxixes, carurus e tinha procissão da Santa que se hospedava nas casas pra ouvir as ladainhas das mulheres, sentir o cheiro de vela, de bênção e de preces.

Ajudávamos como podíamos, eu, meus irmãos e primos. Os primos da roça riam de nós, os desajeitados primos da cidade. Não ligávamos, ríamos também e tio Pedro ria.

O verão trazia o riso pra roça, riso de menino brincando em açude, caindo de cavalo e levando surra de rabo de vaca. O verão trazia as estrelas, nas noites escuras, que ajudavam o tio a contar histórias de medo, de assombração, de meninas que tinham cabelos verdes, mortas por madrastas malvadas, de meninos pretos castigados até a morte, de vaqueiros corajosos que tinham salvado o mundo inteiro, de bichos falantes e inteligentes que protegiam seus donos, fosse bicho que voa, que anda, fosse bicho pequeno ou grande. Meu tio jurava que tudo era verdade:

— Tio Pedro é cristão, não jura em falso pra amedrontar menino!

Boi Zebu era a comprovação de tudo. Ele tinha socorrido minha avó que se atrevera a espiar vaca que deu cria. Boi Zebu mugiu, urrou alto e chamou tio Pedro, enquanto minha avó, estirada no chão, cobria a cabeça com as mãos ensangüentadas. Tio Pedro ouviu boi Zebu de longe e entendeu e correu e boi Zebu já estava enfrentando a vaca, chifrando-a, protegendo minha avó, desmaiada no chão. Tio Pedro chegou e a vaca, ferida, afastava-se com seu bezerrinho, fula da vida com boi Zebu. Boi Zebu virou herói da família, a criançada toda o adorava: boi mansinho que havia salvo a vida da avó. O tio não o vendia por dinheiro nenhum do mundo. Boi Zebu era a prova das verdades de Tio Pedro.

Minha avó não perdeu a coragem. Era mulher forte e cheirava a fumo e a água de pote. Vivia com a brasa na colher pra acender o pito, encostada na porta, nos dava pito, ao nos ver afundando no açude. Ríamos e fingíamos ser peixe. Ela ralhava mais forte, saíamos e a roupa secava, enquanto vencíamos ou perdíamos o concurso de quem conseguia tirar o bago inteiro do licuri. Minha avó nunca nos beijava, mas seu abraço nos dizia com a força do aperto:

—Sejam bem- vindos, estávamos com saudades! Minha avó só lacrimejava seus olhos azuis, enrugados, com a fumaça do seu cigarro de palha e com a nossa partida: mulher nordestina não tem frescura, chora com a morte dos filhos e a partida é uma meia morte.

No inverno os cheiros mudavam todos. Não havia o leite fresco embebendo imbu, açúcar cristal completando a coalhada, nunca encontrada nas prateleiras dos mercadinhos da minha cidade:

— Mãe, quero a coalhada com imbu da minha avó! Era a ladainha do retorno que a mãe aflita, não podia atender: onde o imbu da casa da minha avó?

Na cozinha de minha vó Antonina se encontra o nó de minhas lembranças, foi lá que eu deixei todos os cheiros preciosos do meu tempo de criança.

PS. As fotos são de tio Pedro hoje.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Uma antiga para o Félix (que como o Marco) gostava dessa crônica

CIRANDA

Fia era linda: morena alta, portentosa, senhora de respeito. Usava uns colares que lhe davam ainda mais dignidade. As más línguas não cansavam de apontá-la na rua e virarem-lhe as costas. Ela não dava a mínima e respondia sempre com um sonoro: Bom dia, fulana! Boa tarde, sicrana! Depois cuspia e tragava seu inseparável companheiro e continuava seu caminho. Eu acho que todos tinham inveja da sua imensa popularidade e da disponibilidade que ela tinha para conosco.


Sua casa, muito grande, estava sempre ajeitada e meu olfato registrava: era a mais perfumada de todas. O odor do chão brilhante e das panelas ariadas só perdia para o cheiro das jabuticabas. Quando o fruteiro passava, ela gritava: seu Zé quanto está a bacia? Nós parávamos tudo que estávamos fazendo, porque sabíamos o que nos aguardava.


Nossas mães, apesar de serem amigas de Fia, sempre a repreendiam. Mas de nada adiantava brigar com ela... As mães não aprendiam nunca e sempre se repetia a mesma ladainha: "Fia de novo? É hora do almoço, as crianças vão perder a fome!"


Ela (para a nossa felicidade) nem dava bola, apenas sorria e preparava a festa: bacia brilhando, cheia de água que fazia as jabuticabas fresquinhas boiarem.

Fazíamos uma roda em volta para saborear aquelas maravilhas.


Ela não comia, nunca vi Fia comendo.... Mas ficava sempre na roda, jogando conversa fora. Perguntava como cada um estava na escola, por que a Jane estava triste, o que tinha acontecido com a perna do Carlinhos, por que Hamilton e Marcos estavam com a cara amarrada. Olhava para mim e comparava meus olhos à jabuticaba. Brigava com o Guto, seu filho e meu amor secreto.


Fia era assim, uma mãe sem os defeitos de fábrica. Com sua delicadeza conseguia arrancar de nós segredos incríveis. Quantos problemas impossíveis não solucionei nessas rodas de terapia em grupo?


O marido de Fia, Sr. Hélio, mudou de emprego e carregou minha adorável terapeuta para bem longe. No começo eu demorei a acostumar. Olhava o vazio enorme que restou, naquela disposição de cinco casas em que todos os fundos davam para um terreno abandonado. Ali era meu mundo, as mães pegavam abóbora para o almoço e os filhos se revezavam no trecho cimentado: meninas jogavam amarelinha, meninos transformavam o cimento liso numa pista pra carrinhos de rolimã.


Vez por outra eu perguntava para minha mãe como andava Fia. Minha mãe dizia que ela estava bem e ríamos recordando suas peripécias. Gostávamos de lembrar de suas travessuras, nessas horas minha saudade aumentava. Evitávamos falar dos momentos em que Fia sofria: ela era alcoólatra e não admitia.


Quando estava ébria parecia possuída, perdia a doçura das jabuticabas, subia na mesa, largava a casa, quebrava as coisas e falava um monte de palavrão.


Mas, mesmo neste estado, não abandonava o carinho pelas crianças, nunca nos feria, nunca. Nem ao Guto que se enervava e tinha uma enorme vergonha nessas horas.... Vergonha que tomava conta de Fia quando ficava sóbria. Uma vez a vi chorando, porque tinha se dado conta dos sentimentos do Guto.


Eu, aos doze anos, tinha presenciado duas bebedeiras que- mais tarde- soube que eram muito freqüentes.


Aos dezesseis, recebemos um telegrama do Sr. Hélio. Minha mãe chorou e pediu que nos apressássemos.


Quando chegamos, a primeira pessoa que vi foi Guto. Ele era o mais velho entre nós e o caçula de Fia. Lembrei-me do quanto ele não gostava de se misturar com a "molecada" como pejorativamente nos apelidou. Enquanto minha mãe e meu pai cumprimentavam a família, fiquei parada, observando-o.


O menino intransigente havia se transformado num belo homem. Chorava muito. Eu tinha vontade de me aproximar, mas detesto a cor roxa, detesto essas flores sem perfume e essa madeira preta lustrosa. Guto, por sua vez, não saía dali, não largava as mãos de Fia.


Fiz um esforço incomensurável, caminhei até ele e vi minha encantadora vizinha muito feia. Feia como nunca eu a havia visto, nem quando estava cheia de cachaça, fazendo pirraça para todos que queriam abrandar seu vexame. Até nessas horas ela não perdia seus encantos. Mas ali, sem seus colares, com um vestido sem cores e sem decote, sem o batom vermelho encarnado, não parecia a minha terapeuta.


Nesse milésimo de segundo, achei que ela sorriu, como sempre fazia com seu olhar cúmplice nas rodas de jabuticabas. Guto me olhou e, por um instante, acho que me compreendeu: nesse dia, meus olhos de jabuticaba não podiam vê-lo, não podiam consolá-lo. Saí correndo e atravessei a porta de vidro da funerária. Do meu dente tirei uma lasquinha que nunca consertei.


Quando como jabuticabas, sinto as sementes tocarem meu dente quebrado e me recordo do cheiro do chão que Fia mantinha impecavelmente encerado. Lembro-me do instante que Guto me viu e eu não podia diminuir a sua dor. Lembro de colares lindos que encantavam meus olhos de jabuticaba. Revejo um círculo onde foi cimentado a minha infância ao lado de Fia.


Nessas horas, ela sempre vem me visitar, escancarando seu sorriso cúmplice, anunciando seu bem estar com a vida, apesar dos pesares...


Frô, 1999 (a propósito, Fia era negra e para entender essa informação, clique aqui).

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Palavreando a Vida

Desde ontem fiquei com vontade de mostrar a vocês uns escritos de um grande amigo.
Amigo que conheci nos idos de 1998 de um modo casual, em que a Teia teve muito a ver com o fato.

Ele escrevia pra uma revista eletrônica publicada no antigo ZAZ., onde, por acaso, li um texto chamado Oito Segundos...

Eu fiquei tão zangada que de imediato enviei um e-mail agressivo, malcriado para o autor, que intuía ter feito a barbárie que contava no texto.

Não esperava nenhuma resposta, mas na mesma noite recebi um e-mail igualmente malcriado. E foi assim com malcriadeza que começamos a nos corresponder, primeiro por e-mail particular, depois pelo icq e através dos grupos.

Grande pescador, tivemos grandes discussões a respeito. A bem a verdade continuo sem saber distinguir um dourado de um tucunaré, que pra mim é tudo peixe e deveriam ficar nas águas nadando...Nada de pesca por diversão. Nem preciso dizer que isso o tirava do sério.

Wilson Morais, pessoa incrível, amigo, irmão, verdadeiro, de quem tenho muita saudade....

beijo
Taís


Taís: Os folgados
Tuesday, April 15, 2003 7:53


Cara Taís:
Tô por aqui, amoitado, como sempre devo
estar. Mas corujando. Ando na voragem, sem espaço em minha agenda de
sem-que-fazer. Arrumei tanta coisa pra não fazer, que não me sobra tempo pra mais nada.
Gostei de suas observações sobre esse negócio de não dar mais pra
gente ir ao cinema, por causa dos folgados, do senducacionismo que impera
pela aí em fora. Isso vem do berço, neguinho devia aprender em casa, e os
pais é que são os mais culpados nessa história, pois que não impõem limites
aos rebentos, deixam-nos achar que o mundo gira em torno deles.
E a coisa não tende a melhorar. Esse comportamento espaçoso se espalha por
toda parte. É no cinema, na escola, no trânsito, no supermercado, na rua,
enfim. E já se notam gerações mais maduras com esse deplorável defeito de
fabricação. A sucessão vai ser cada vez pior, é claro.
É por essas e outras que eu fico entocado em minha caverna. Eu não suporto
gente folgada, eu penso em dar tiros, me vem um gosto de sangue na boca,
meus ancestrais carroceiros e paraibunais rebrotam e eu não me contenho não.
Então eu evito aglomerações.
Dia desses, por engano, entrei num supermercado em que havia uma liquidação.
Vigimaria! Levei bundada de tudo que é gorda que havia, levei cotovelada,
fui xingado. Aquilo era pior que Bagdá! Feras enlouquecidas!
Eu sobrevivi porque felizmente apliquei uns golpes bem
colocados numa gorda e consegui sair do rolo usando um carrinho como
escudo. Senão, minha amiga, não tava aqui pra contar a história! Deus me livre!
Nunca mais!
Mas me lembro duma cena exemplar acontecida aqui no Bar do Pinga. Neguinho
que não era habitué do pedaço chegou voluntarioso, tava passando jogo na
tevê. Ele se sentou confortável, esticou uma perna por sobre outra cadeira e
sem nem olhar gritou:
-Ô meu, me traz aí uma cerva, supergelada e rapidinho!
O Bar do Pinga é um lugar meio ruim pra saúde de
nego folgado, reduto de gente braba, que convive numa paz quando muito de
Oriente Médio, cada um na sua, e deixa viver ou morrer. Caso contrário, a
jiripoca pia mesmo.
Claro, de vez quando, estoura um tiro, uma facada, um arranca-rabo, mas
coisa que se controla, um e outro morto mensal, algum ferido grave. Mas tudo
tá dentro da média estatítisca nacional.
O Pinga é a paciência escrita, a calma, no seu jeito de Ghandi. Desses que
engana a gente. Foi atender o freguês.
-Pois não?
-Tá surdo, meu? Já pedi cerva, vá buscar!
Eu conheço o Pinga de longa data, e sei que quando ele pisca duro
alguma coisa vai pegar feio. Eu fiquei pronto prum revira, que vinha
coisa. O Pinga respicou umas três vezes, o povo já se pôs de lado, deixando o
jogo na tevê. Aquilo foi silêncio de pegar com a mão, tensão de pênalti em
final de segundo tempo em jogo empatado.
-O cavalheiro poderia me fazer
uma gentileza? - disse o Pinga com seu jeito indiano.
-Quié, meu? Vá buscar a cerva!
-Poderia tirar sua pata de minha cadeira e enfiar ela na
BUCETA de sua mãe?
E já foi pegando o fulano pelo cangote e jogando na
rua. O povo só assistindo, aquilo tava atrapalhando o jogo. Alguém
tomasse providência, ou todo mundo batia no cara.
É, com o Pinga não tinha meio termo, não. Ele era assim, arrancado o pino,
explodia, feito granada de mão.
O cara bateu o pó das calças e se mandou ligeiro, sumiu de olho
arregalado, nunca mais seria visto no pedaço.
Pinga, enfadado, a balançar cabeça, resmungando:
- Ah! educação! É o que falta a essa
juventude.... Aqui tudo é gente fina, e eu faço questão de preservar assim.
E o movimento voltou ao que era, como se nada houvesse.

Abraço
Wilson