vejo na avenida a fragilidade
estampada em rostos frágeis
nessa poluente querida cidade
a massificar sorrisos descartáveis
passos cadenciados percorrem
as espinhas e sangüíneas veias
num pulsar delirante de agonia
escondidos nos festejos natalinos
desejos de felicidades que expressados
como água que do céu cinzento desaba
nas cabeças de burgueses ocupados
onde o raciocínio nunca acaba
cuja sorte é estar crucificado
ao dia a dia de desejos insaciados
pastorelli
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segunda-feira, 22 de março de 2010
segunda-feira, 15 de março de 2010
todos os dias
.
me acontece coisas extraordinárias
que, por causa da pouca sensibilidade
não percebo e isso é bom é normal
e tem que ser assim e assim será
pastorelli
me acontece coisas extraordinárias
que, por causa da pouca sensibilidade
não percebo e isso é bom é normal
e tem que ser assim e assim será
pastorelli
segunda-feira, 8 de março de 2010
tecedura
.
nas manhãs de inverno
há sempre uma calmaria
que quando chego pertodo
meu destino no dia a dia
parece-me tudo sempre igual
mas tenho certeza do engano
mesmo que o dia seja fenomenal
a fímbria do aveludado pano
desvenda tênues mudanças
que fortalece a vã esperança
em contínua enfadonha procura
do glorioso pássaro azulque
como harmoniosa luz
reflete nossa amarga tecedura
pastorelli
nas manhãs de inverno
há sempre uma calmaria
que quando chego pertodo
meu destino no dia a dia
parece-me tudo sempre igual
mas tenho certeza do engano
mesmo que o dia seja fenomenal
a fímbria do aveludado pano
desvenda tênues mudanças
que fortalece a vã esperança
em contínua enfadonha procura
do glorioso pássaro azulque
como harmoniosa luz
reflete nossa amarga tecedura
pastorelli
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Servir o exército.
.
- Quando servir o exército ele muda, Ruly. – dizia meu tio, o irmão mais velho de minha mãe.
Ele dizia isso porque eu fui sempre uma pessoa tímida, retraída, envergonhada, por qualquer coisa que me acontecesse me sentia intimidado.
E no quartel não sobrava tempo para se pensar em tais sentimentos, em timidez, ou eu fazia o que era mandado ou eu era excluído, seria um veado, como diria o Tenente.
Um dos sentimentos que sempre me apavorou, e que no transcorrer dos dez meses que passei no exército, não lembro ter sentido uma vez sequer foi o medo.
Andava a cavalo, levei tombos, escorregões mil, cai na água, pulei obstáculos a pé ou a cavalo, exercícios de tiro, nada disso me fez sentir medo.
O que apavorava mesmo eram os boatos, principalmente os boatos propagados pelos antigos, os soldados que estavam lá quando cheguei.
O esquadrão era um edifício enorme, onde dos dois lados estavam os alojamentos com mais de 300 beliches cada um, local que a gente entrava só para dormir ou descansar, a maior parte do tempo permanecia fechado.
De dia se fazia a faxina pelos plantonistas, varrido, encerado, deixava brilhando, e à noite, depois do toque do silêncio, os mesmos plantonistas tinha que fazer a ronda, de hora em hora passar por entre os beliches verificando se tudo estava na mais perfeita ordem.
Quando eu pegava serviço de plantão e tinha que fazer a ronda, não percorria os alojamentos de ponta a ponta não, como era obrigado a fazer. Eu ficava entre os alojamentos, na parte mais clara, porque se de dia já era assustador à noite então, era mais ainda, principalmente quando era noite de lua cheia, o clarão da lua entrava pelas janelas formando sombras fantasmagoricamente grotescas.
Quando eu entrava no alojamento queria só deitar e dormir, e era o que me acontecia, rapidamente, nem bem eu encostava a cabeça no travesseiro eu já estava dormindo.
Dizia-se que vários soldados acossados pela pressão militar, longe da família, se suicidaram e que a alma dos pobres coitados rondavam os alojamentos assustando os novatos.
Uma das histórias mais arrepiantes que se contava, era que um antigo soldado, de modos esquisitos, cheio de tiques, super nervoso, meio tantã da cabeça, tentara por várias vezes, e até que um dia conseguira se suicidar.
Depois de um mês não lembrava mais dos boatos nenhum e o medo tinha sido engolido pelos afazeres diários e outras preocupações.
pastorelli
- Quando servir o exército ele muda, Ruly. – dizia meu tio, o irmão mais velho de minha mãe.
Ele dizia isso porque eu fui sempre uma pessoa tímida, retraída, envergonhada, por qualquer coisa que me acontecesse me sentia intimidado.
E no quartel não sobrava tempo para se pensar em tais sentimentos, em timidez, ou eu fazia o que era mandado ou eu era excluído, seria um veado, como diria o Tenente.
Um dos sentimentos que sempre me apavorou, e que no transcorrer dos dez meses que passei no exército, não lembro ter sentido uma vez sequer foi o medo.
Andava a cavalo, levei tombos, escorregões mil, cai na água, pulei obstáculos a pé ou a cavalo, exercícios de tiro, nada disso me fez sentir medo.
O que apavorava mesmo eram os boatos, principalmente os boatos propagados pelos antigos, os soldados que estavam lá quando cheguei.
O esquadrão era um edifício enorme, onde dos dois lados estavam os alojamentos com mais de 300 beliches cada um, local que a gente entrava só para dormir ou descansar, a maior parte do tempo permanecia fechado.
De dia se fazia a faxina pelos plantonistas, varrido, encerado, deixava brilhando, e à noite, depois do toque do silêncio, os mesmos plantonistas tinha que fazer a ronda, de hora em hora passar por entre os beliches verificando se tudo estava na mais perfeita ordem.
Quando eu pegava serviço de plantão e tinha que fazer a ronda, não percorria os alojamentos de ponta a ponta não, como era obrigado a fazer. Eu ficava entre os alojamentos, na parte mais clara, porque se de dia já era assustador à noite então, era mais ainda, principalmente quando era noite de lua cheia, o clarão da lua entrava pelas janelas formando sombras fantasmagoricamente grotescas.
Quando eu entrava no alojamento queria só deitar e dormir, e era o que me acontecia, rapidamente, nem bem eu encostava a cabeça no travesseiro eu já estava dormindo.
Dizia-se que vários soldados acossados pela pressão militar, longe da família, se suicidaram e que a alma dos pobres coitados rondavam os alojamentos assustando os novatos.
Uma das histórias mais arrepiantes que se contava, era que um antigo soldado, de modos esquisitos, cheio de tiques, super nervoso, meio tantã da cabeça, tentara por várias vezes, e até que um dia conseguira se suicidar.
Depois de um mês não lembrava mais dos boatos nenhum e o medo tinha sido engolido pelos afazeres diários e outras preocupações.
pastorelli
domingo, 21 de fevereiro de 2010
régua e compasso
.
para Rosy Feros
se sou régua e preciso compasso
é que dificilmente eu me refaço
e nem sempre é o que eu passo
o que geometricamente eu traço
o contorno deste tom quase lasso
está registrado nos meus braços
onde me embriago como devasso
em castos beijos e doces abraços
ah! régua e preciso compasso
quisera eu ser e o imenso espaço
métrico ter me livrado do cansaço
que me impõem o temível compasso
e assim usufruir do teu livre espaço
recebendo o conforto do teu abraço
pastorelli
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Psicografia
.
Quase todos os dias eu via dois urubus. Não, não são freiras. São duas moças, até que bonitas. Sempre de preto, exigência do serviço? Uniforme? Não sei e nunca vou saber, minha curiosidade não foi tanta para perguntar. Estavam sempre tagarelando. Duas vorazes leitoras. Sempre com um livro de auto ajuda, desses psicografado, da Zibia Gaspareto. Não tenho nada contra esses livros e muito menos de quem os lê. Só que essas pessoas, creio que nem todas, mas elas duas pareciam ser as donas da verdade. E ainda por cima, antipáticas, nariz arrebitado, pelo falatório dava a entender que só elas é que tinham razão, só elas é que estavam certos, os outros é que estavam errados. A meu ver pessoas desse tipo deviam ser fuziladas.
pastorelli
Quase todos os dias eu via dois urubus. Não, não são freiras. São duas moças, até que bonitas. Sempre de preto, exigência do serviço? Uniforme? Não sei e nunca vou saber, minha curiosidade não foi tanta para perguntar. Estavam sempre tagarelando. Duas vorazes leitoras. Sempre com um livro de auto ajuda, desses psicografado, da Zibia Gaspareto. Não tenho nada contra esses livros e muito menos de quem os lê. Só que essas pessoas, creio que nem todas, mas elas duas pareciam ser as donas da verdade. E ainda por cima, antipáticas, nariz arrebitado, pelo falatório dava a entender que só elas é que tinham razão, só elas é que estavam certos, os outros é que estavam errados. A meu ver pessoas desse tipo deviam ser fuziladas.
pastorelli
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Pobres heróis esquecidos...
.
“A faixa amarela é a sua segurança, só a ultrapasse quando o trem abrir as portas, evite arriscar a vida” – berra o alto falante da estação do metrô.
Viver a vida sem arriscá-la é melhor não vivê-la. Se eu não me arriscar à vida será pura monotonia, será uma chatice sem graça nenhuma. É claro que não vou me arriscar a ponto de perdê-la fisicamente. Vou é viver apaixonadamente no limite do perigo, ou melhor, viver no perigo do limite, entre o real e o irreal, entre isto ou aquilo, aliás, prefiro viver mais aquilo do que isto, pois isto já conheço e aquilo ainda não conheço e o não conhecer é mais fascinante do que o conhecido, o não conhecer me faz viver, me faz mudar constante meu passo um após o outro seguindo as trilhas insondáveis, os caminhos inesgotáveis que poderão me proporcionar o alimento a minha sede de prazer. Apesar de bela a vida em si é insípida monotonia onde os heróis “morreram de overdose”. Hoje em dia não há mais heróis, tiraram seu espaço para a genialidade, nem no cinema, nem na música. O pai deixou de ser o herói dos seus filhos achatados pelo consumismo desenfreados morrendo podres e esquecidos numa vala qualquer de um cemitério qualquer.
pastorelli
“A faixa amarela é a sua segurança, só a ultrapasse quando o trem abrir as portas, evite arriscar a vida” – berra o alto falante da estação do metrô.
Viver a vida sem arriscá-la é melhor não vivê-la. Se eu não me arriscar à vida será pura monotonia, será uma chatice sem graça nenhuma. É claro que não vou me arriscar a ponto de perdê-la fisicamente. Vou é viver apaixonadamente no limite do perigo, ou melhor, viver no perigo do limite, entre o real e o irreal, entre isto ou aquilo, aliás, prefiro viver mais aquilo do que isto, pois isto já conheço e aquilo ainda não conheço e o não conhecer é mais fascinante do que o conhecido, o não conhecer me faz viver, me faz mudar constante meu passo um após o outro seguindo as trilhas insondáveis, os caminhos inesgotáveis que poderão me proporcionar o alimento a minha sede de prazer. Apesar de bela a vida em si é insípida monotonia onde os heróis “morreram de overdose”. Hoje em dia não há mais heróis, tiraram seu espaço para a genialidade, nem no cinema, nem na música. O pai deixou de ser o herói dos seus filhos achatados pelo consumismo desenfreados morrendo podres e esquecidos numa vala qualquer de um cemitério qualquer.
pastorelli
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
quinta-feira, 6 de março de 2008
poema - 1 gesto altruista e a oportunidade de contar 1 história da Escritas.
Uma historinha, pra começar... 1999. Líamos, comentávamos, poetávamos, na Lista Escritas. Aprendíamos, uns com os outros. Eu era uma aprendiz bem comportada, muitas vezes insegura se a minha escrita era mesmo um poema. Sempre contando uma ou outra coisa, comentei sobre a `mãe de arame', uma experiência citada na faculdade de psicologia: "a quem se dirigiriam bebês colocados frente a: uma escultura de arame à semelhança de uma mulher, com roupas femininas; uma macaca. À macaca. Explicação dos pesquisadores: o calor, a vida." Isso deu `panos pra manga'. Metáforas, muitas, muitas. Não sei se os aqui estão dos que estavam na época se lembram da dobradinha que eu eu a Frô (Maria Oliveira) fizemos, depois dessa muita discussão. Bem, a FRô fez um poema sobre a mãe de arame. Um belo poema que falava de uma mulher ocupada demais para dar calor ao filho. Eu fiz um em resposta. Filho da mãe de arame, colado abaixo. E depois de tanta paulada na `mãe de arame', fiz um sobre ela, que nunca divulguei. (Catita) Agora, quase dez anos depois, a Ana me pediu um poema, para fazer um em resposta. Lembrei do CATITA, inédito, e o cedi a ela. VEIO, NESTE BELO POEMA DA ANA, O MEU VERSO COMO EPÍGRAFE, O QUE ME DEIXA HONRADA E AGRADECIDA, DUPLAMENTE, POR TRAZER TAMBÉM, EM SI - ESSE SEU GESTO ALTRUÍSTA -, A PORTUNIDADE DE SER CONTADA AQUI UMA HISTÓRIA DOS PRIMÓRDIOS DA ESCRITAS. Beijos, muitos, ana querida, gratos e comovidos. Parabéns pelo POEMA.
sonia
FILHO DE MÃE DE ARAME
Sonia Regina
Sou bonito sou querido
vivo a repetir sem parar
Tão pequeno e esquisito
nesse jeito de te amar
cada vez que ne arranhas
sonho que são as minhas manhas
que voltam a te incomodar
vejo o mundo com doçura
esperando a ternura
que em ti não tem lugar
quando jogo tudo que tenho
passo fase sem piedade
invento forte veneno
o que quero é tua lambida
tua risada gargalhada
na ferida esgarçada
pelo arame imprensada
no meu peito tão pequeno
teu sorriso já não quero
já não peço
hoje espero
acredito ser sincero
ao dizer ainda te amo
vã loucura a fantasia
de querer-te assim querendo
adorar a água fria
com que banhas os meus sonhos
quando grande eu for mirar
o que passou - e vai passar
fecho portas do pensar
em poder te criticar
Afinal se tu erraste
em algo tu acertaste
soubeste negar-me com arte
e deixar a melhor parte
para mim aqui perdido
por enquanto
introvertido
mas já bem decidido
a transformar esse desastre
em um filme, um baluarte
uma história, um belo livro
onde com a melhor arte
- aí vem a melhor parte-
serei bem sucedido
com o amor que me negaste
CATITA
Sonia Regina
30/9/99
Que arame, que reclame
sai da linha, vive a vida
essa brisa que te alisa
logo vira ventania
nem a lista ou ternura
te afastam a lida dura
esse é o fato, a vida dupla
ou então
a vida tripla.
E assim tão parecidas
a mãe, a filha... a catita
ó Senhora Aparecida
não tão santa...
nem tão puta.
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