quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Mmória

“... a memória não se faz presente, de uma só vez, mas se desdobra em vários tempos...” - Freud a Fliess/Carta 52.

É como um trem composto por vagões de memória, habitados por sentimentos vários.

Tenho um poema que escrevi há tempos – Coração Vazio – que fala de trem, vagões, estações e vinho. É um dos meus filhotes favoritos.

Hoje, sentei-me no vagão da nostalgia e folheando arquivos empoeirados, deparei-me com as palavras de amigos que há muito se fazem ausentes.
Alguns se foram deste mundo e deixaram seus registros, outros se perderam no tempo e no espaço infinito da vida (talvez para sempre). Muitos foram resgatados num cantinho criado pela Frô:
Poetas Lusófanos .

Tive notícias de tantos através do Google. Gravei seus caminhos e, entretanto, deixo-os irem, sem ao menos esboçar um aceno.
Porquê? Não sei ao certo. Desconfio que seja pelo fato de que os interesses, antes comuns, tenham se tornado distintos.

Mesmo assim, me são caros e, muitas vezes, sento-me em silencio ao lado deles servindo-me fartamente no prato de suas palavras.

Hoje, a nostalgia é imensa. Paralisou os atos, os fatos. Deixou apenas que as palavras convertam-se em lágrimas de saudades, caindo fartamente pelos olhos.

Minhas Palavras

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Pobres heróis esquecidos...

.


“A faixa amarela é a sua segurança, só a ultrapasse quando o trem abrir as portas, evite arriscar a vida” – berra o alto falante da estação do metrô.
Viver a vida sem arriscá-la é melhor não vivê-la. Se eu não me arriscar à vida será pura monotonia, será uma chatice sem graça nenhuma. É claro que não vou me arriscar a ponto de perdê-la fisicamente. Vou é viver apaixonadamente no limite do perigo, ou melhor, viver no perigo do limite, entre o real e o irreal, entre isto ou aquilo, aliás, prefiro viver mais aquilo do que isto, pois isto já conheço e aquilo ainda não conheço e o não conhecer é mais fascinante do que o conhecido, o não conhecer me faz viver, me faz mudar constante meu passo um após o outro seguindo as trilhas insondáveis, os caminhos inesgotáveis que poderão me proporcionar o alimento a minha sede de prazer. Apesar de bela a vida em si é insípida monotonia onde os heróis “morreram de overdose”. Hoje em dia não há mais heróis, tiraram seu espaço para a genialidade, nem no cinema, nem na música. O pai deixou de ser o herói dos seus filhos achatados pelo consumismo desenfreados morrendo podres e esquecidos numa vala qualquer de um cemitério qualquer.

pastorelli

domingo, 31 de janeiro de 2010

75 – A Dama do Metrô



E unidos na quentura dos corpos, as mãos sincronizadas em movimentos, não rápidas, porém exuberantes de ansiedade, subiam e desciam ao mesmo tempo em que tiravam a roupa, peça por peça, sendo jogadas despreocupadamente ao chão.
O hálito quente de cada um picava os pescoços numa respiração ofegante e descompassada proferindo desconexas palavras.
As mãos descrevendo retas e convexos círculos desafiavam a natureza física que dizia: dois corpos não ocupam o mesmo lugar.
A televisão continuava com seu murmúrio quando passaram por ela em direção ao quarto.
- Então, Malu, aceita a minha proposta.
- Vou pensar.
Estavam na cozinha tomando café depois de uma noite intensa de amor e prazeres. Com sua carne de vinte anos, saudável sentindo na pele nua a friagem da manhã e dos objetos, Malu sorria para o amante tendo em mente suas próximas ações.
- Não vai me responder - perguntou mordendo um pedaço de pão.
- Vou responder sim, mas da maneira que eu conheço.
Levantou-se e achegando-se ao amante, empurrou a mesa com violência e sentou-se em seu colo, beijando seu rosto, seu pescoço, o peito, ao mesmo tempo em que mordia o pedaço de pão que ele comia. Entre pão, manteiga, suco, requeijão, dois corpos rolavam no chão da cozinha enquanto a manhã respondia com um belo sol estampando ao mundo a alegria.
Tempos depois, Malu entrava numa sala preparada para ela, onde se lia na porta.
Malu – Gerente de Markting.
Malu clicou em imprimir. Foi até a cozinha e se serviu de uma dose bem generosa de uísque. Assim que a impressora encerrou seu trabalho, pegou o calhamaço de folhas, enfiou num envelope grande, e escreveu.
Para o meu Editor – Malu
Lacrou o envelope e colocou em cima da mesa. Depois foi até o quarto, se despiu, e nua se postou em frente a janela da sala, e ficou por um longo tempo olhando para o vazio da vida.
No dia seguinte os jornais estampavam a noticia.

“A famosa escritora Malu suicidou-se. Seu corpo foi encontrado perto do prédio onde morava no décimo segundo andar. Nua, abraçada a um pênis gigante de borracha Malu se suicidou aos sessenta anos de idade. Famosa por seus contos eróticos onde contava histórias envolvendo suas aventuras no Metrô, teve sua vida vasculhada quando se envolveu aos cinqüenta e dois anos, no escândalo em que foi acusada de aliciar menores em seu apartamento. Ao sair com a fama chamuscada, se recolheu onde ninguém mais tinha noticia dela. Corria o boato que ela estava escrevendo suas memórias. A policia encontrou em seu apartamento um envelope com o manuscrito do seu livro, onde no final deixou uma citação da escritora Hilda Hilst: Ainda que as janelas se fecham, é certo que amanhece. Seu enterro será amanhã às catorze horas no cemitério da Vila Formosa”.

FIM

05.07.07
pastorelli

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

74 – A Dama do Metrô




A tigela de pipoca corria o perigo de cair do seu colo e se espatifar no assoalho lustroso, enquanto que, o som da televisão invadia o apartamento se confundindo num dialogo de vozes que se perdiam na tarde de domingo. O sol invadia a pequena sala pouco se importando até onde alcançaria seu raio. Malu deslizava entre um objeto e outro, procurava não pisar nas filigranas de luz. Cuidadosamente conduzia o pé devagar calculando a distância entre uma passada e outra. Não atinava porque tinha que andar dessa maneira, com cuidado, devagar e não pisar nas finas listas de luz. E, também não sabia o que aconteceria caso pisasse, talvez soasse um alarme igual à campainha, como essa que ela ouvia no momento. Mas não estava pisando em lista nenhuma! Então de onde vinha esse som de campainha? Como é irritante! Alguém pare com esse som, gritou sem ouvir a voz. Nisso pisou em falso na borda da lista, perdeu o equilíbrio e caiu jogando tigela e pipoca ao chão. Era a campainha da porta soando estridente. Malu rapidamente levantou-se e correu abrir a porta.
- Boa tarde. – disse ele com reserva.
- Boa tarde. – respondeu surpresa.
Podia imaginar quem fosse, mas nunca ele. O que ele queria?
- Desculpe aparecer assim sem telefonar...
- Sim! Mas o que houve? Deixei tudo certo, não deixei? Paguei até a primeira prestação.
- Sim, eu sei. Posso entrar?
- Ah! Claro, entre. Desculpe a bagunça.
- Bom, é que...
- Sente, faz favor.
- Obrigado. É que você me impressionou tremendamente que fui contra as normas da empresa.
- Que normas você está falando?
- Bem, você saiu da loja logo depois da compra, não pude falar com você.
- E daí? – disse quase que rispidamente, o que não era o seu intuito.
- Posso ser sincero?
- Claro.
- Quando você abriu aquela porta, percebi que estava interessado em mim.
- Convencido.
- Não sou, mas não sei porque percebi isso. Também fiquei interessado em você, principalmente depois que você abriu aquela porta. Sabe que depois que você fechou a porta, fiquei mais de cinco minutos te observando?
- Fiquei decepcionada pensando que não estava interessado em mim.
- Engano seu. Tanto é que pratiquei um crime contra as regras da loja.
- Que crime foi esse?
- Como gerente, isto é, auxiliar de gerência, tenho acesso aos arquivos dos clientes, e no seu fichário peguei o seu endereço.
- E com isso você corre perigo de ser demitido?
- Sim, mas vale o risco.
- Aceita algo para beber? – perguntou ficando em pé.
- Sim, quero, mas dos seus lábios. – respondeu ficando em pé também colando ao corpo dela.
Logo em seguida sem perceberem, seus lábios se uniram num longo erótico beijo.

03.07.07
pastorelli

domingo, 17 de janeiro de 2010

73 – A Dama do Metrô.



A luz do sábado refletia no calçamento da grande avenida. Tomada à decisão, tinha a certeza de estar fazendo o certo. O salto fino do sapato ecoava entre o barulho da manhã expressada por sua existência feminina. Não precisou andar muito. Viu seu reflexo da estatura media, mirrada na vitrine, quase completando vinte anos, o vestido que lhe cairia bem. Entrou na loja, não era uma Tifafny´s, mas possuía charme e elegância não ficando a desejar a nenhuma loja de roupas femininas.
Relanceou os olhos pelo ambiente assim que seus pés transpuseram a porta giratória.
- Pois não, senhorita? – perguntou o vendedor.
Malu o olhou de cima em baixo. Rapaz magro, meio espigado, de terno azul marinho, rosto quase oval, nariz aquilino, lábios vermelhos, Olhos profundos realçando a cavidade e as sobrancelhas grossas, dando-lhe um ar de prepotência superior.
- Será que passa batom? – perguntou mentalmente. – Saberei só beijando-o.
- O que a senhorita deseja?
- Ah! O que? Ah! Desculpe, estava distraída.
- Pois não senhorita.
- Quero ver um daqueles vestidos que está na vitrine.
- Um momento, vou chamar umas das atendentes.
- Pensei que fosse você...
- Não senhorita, temos moças especializadas em atender.
- Que pena! – Malu não conseguiu disfarça a decepção.
O rapaz sorriu levemente admirando-a no conjunto todo.
- Desculpe, sou apenas o gerente. Com licença.
Não demorou dois segundos, veio uma moça sorridente atendê-la.
- Pois não, senhorita?
- Por favor, quero ver aquele vestido da vitrine. – disse olhando para onde o rapaz sumira.
Enquanto esperava a atendente pegar o vestido, Malu numa ousadia, foi até a porta onde o rapaz entrou. Abriu de mansinho. O rapaz estava falando com outra moça, talvez atendente também. Num relance foi pega em flagrante.
- Desculpe, senhorita, essa área é proibida aos clientes.
- Está certo, desculpe, não deveria abrir a porta.
Rapidamente fechou a porta e foi sentar-se numa das cadeiras esperando a atendente que fora buscar o vestido.
O rapaz antes de fechar totalmente a porta, ficou por momentos admirando como se fosse uma Audrey Hepburn atraente que mexeu com seus instintos viris.
Malu disse para si mesmo.
- Que saco! Hoje vou ter que me consolar solitariamente comigo mesmo, é?
Entrando no apartamento, jogou as compras no sofá, tirou a roupa, e se dirigiu ao banheiro. Abriu o chuveiro, deixou que a água ferisse sua pele em fogo. Lentamente levou a mão entre as coxas e se deixou escorregar numa fantasia no qual o rapaz fazia parte.


02.07.07
pastorelli

sábado, 9 de janeiro de 2010

72 – A Dama do Metrô.




Colocou um sinal gráfico no texto e recostou-se na cadeira. Acendeu um cigarro. Foi até a cozinha, tomou um longo copo de água. Voltou para sala. Ligou o aparelho de som e colocou um cd. Ouviu o piano numa sonoridade melancólica como se perfurasse a carne, onde o sangue escorria palavras que aos poucos formava suas memórias. O tempo ingrato lhe dizia que já não é a mesma, que os seios, outrora fartos, pesa feito pedra; que a barriga sensual de penugem ralo excitante avolumou-se gradativamente; que as pernas antes roliças e lisas tornaram-se grossas mostrando pequenos vasos de veias; que seus lábios carnudos, sensuais, não trazem mais excitamento erótico ao dizer palavras libidinosas; que seus olhos antes vivazes estão meios opacos, lerdos em perceber as intenções; mas ainda tinha atração, se achava sensual.
- Ainda há rapazes que curtem uma coroa enxuta. – disse se exibindo ao espelho.
Com uma alfinetada de pesar constatou que não poderia escolher como antigamente escolhia suas presas. Agora aquele que caísse na sua armadilha, não importasse qual fosse, teria que traçá-la. Voltou ao computador. Voltou as suas memórias que no momento era o único prazer que poderia usufruir.
Nos primeiros meses Malu pensou somente no serviço. Trabalhava com uma prazerosa disposição aprendendo tudo que lhe ensinavam. Sabia ter potencial limitado, mas com o tempo essa limitação seria eliminada. Ao passar os meses de experiência é que Malu suspirou mais aliviada, no entanto tinha noção que ainda não estava segura, de uma hora para outra poderia ser demitida. Para que isso não acontecesse foi assimilando todos os aspectos, desde ao baixo nível até ao mais alto. Isto é, não chegou a aprender todos os pormenores do que, em matéria de serviço, ocorria na seção ao qual estava designada, mas tinha potencial para discutir quais fossem o assunto pertinente que surgisse no dia a dia.
Traçou um objetivo e dentro desse objetivo se empenhou ferrenhamente a conquistá-lo, mesmo que precisasse usar do seu charme feminino. Pouco importava com o que dissessem da sua atitude, tinha e precisava alcançar o limite máximo a que se propusera atingir.
Assim sendo ao receber seu primeiro salário como efetivada, gastou em roupas e sapatos e bolsas e perfumes, deixando apenas uma pequena quantia para seu lazer e condução.
27.06.07
pastorelli

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

71 – A Dama do Metrô.





Em frente ao micro, seus dedos imprimiam na telinha sua memória, Malu tentava de uma maneira, até pode se dizer, dolorida, procurar entender sua obsessão maníaca e sexual levando-a agir às vezes descontroladamente.
Ela não sentia remorso, ódio, aliás, em seu peito não tinha lugar para sentimentos que considerava fora do seu alcance. Havia um espaço em branco, um buraco que a alimentava corrosivamente. Tinha noção dos seus atos, não pensava nas conseqüências, coisa que para ela não existia. Não tinha noção e nem sentimento de culpa, não nasceu assim, fizeram que ela fosse assim. Culpava o idiota do irmão, aquele drogado que só pensava em sexo, droga e correr atrás das putas, culpava o irmão por usá-la; culpava o pai sabendo o que se passava no barracão e nada fez para impedir, aliás, queria participar também e por ser covarde tomou uma atitude errada; culpava a mãe por seu distanciamento e por acobertar tudo o que acontecia suportando trabalhar horas e horas por dia sustentando dois animais inúteis. Não sentia pena deles e nem dó, deveriam ser eliminados da face da terra.
Há tempo estava ali? Olhou o relógio. Quarenta e cinco minutos. Rodou a caneta nos dedos sem saber o que fazer. Leu mais uma vez o teste. Não entendia nada, tinha pequena noção de algumas questões, o que não a ajudaria. Precisava do emprego, estava quase dois meses sem pagar o hotel, logo seria despejada. Olhou para os lados, estavam todos compenetrados de cabeça baixa. O selecionador, rapaz bonito, alto, ombros largos, cabelos pretos empastado de gel, a todo o momento coçava a virilha olhando em sua direção.
- O que ele quer dizer com isso? – pensou.
Voltou os olhos para o papel. Precisava responder alguma coisa, seria vergonhoso entregar em branco. Os segundos e minutos passavam numa velocidade atroz. Com o rabo do olho, Malu percebeu que o selecionador estava ao lado dela. Ergueu os olhos mortiços prontos para o que viesse. Distinguiu um sorriso maroto nos lábios finos de vermelha sexualidade. Um suor frio seco descarregou eletricidade indo pousar levemente entre suas coxas. Sorriu também.
Todos já tinham entregado os testes, apenas ela permanecia na sala. Ainda faltava mais de meia hora. Portanto achou de direito se arriscar. Não tinha nada a perder mesmo. Sabia que não seria selecionada, pouca coisa respondera.
- Escuta, vejo que você durante o tempo todo não tirou os olhos sobre mim.
- É verdade.
- Então vou propor uma coisa para você.
- O que?
- Bem, você é bonito, vejo que seu excitamento é evidente, sua calça deixa transparecer isso, bom... Vou direto ao assunto. Deixo você me possuir, porque também quero sentir você dentro de mim, e em troca quero o emprego, entende?
- Entendo.
- Então, combinado? – perguntou, e se aproximando pousou a mão no peito do rapaz que num ímpeto a tomou nos braços e beijou-a longamente.
Malu sentiu toda a força viril sendo tragada por ela em sua língua. Não deixando por menos, deslizou a mão do peito até a braguilha abaixando o zíper. O rapaz virando-se jogou seu corpo em cima da mesa, arrancou sua calcinha, e a penetrou, não numa velocidade faminta, mas num desejo em tê-la tão em seus braços ao sentir a quentura queimando sua pele peniana.
Assim que terminaram, Malu se recompôs, ajeitou a gravata dele, beijou-o suavemente.
- Onde é o banheiro?
- É no fim do corredor. – disse ele.
Uma semana depois, Malu recebeu um telefonema chamando-a. Conseguira o emprego, rodopiou feliz e constatou seu poder de controle sobre essa raça infeliz que é o homem.

27.06.07
pastorelli