quarta-feira, 7 de maio de 2008

domingo, 4 de maio de 2008

18 – A Dama do Metrô.

É verdade, tinha marcado a consulta e não fora. Refletiu. Para que ela queria saber o porque do que lhe acontecia? O que tinha a fazer era aproveitar, pois o tempo passa, a idade chega, aí só terá lembranças.
Malu na verdade, foi procurar o psicanalista. Chegou até a porta do consultório. Indecisa ficou por minutos sem saber se batia ou não. Vendo a decadência do corredor escuro, sujo, e na porta a tabuleta torta com os dizeres mal escritos: Dr. Valdo Pastore, psicanalista, atende também a domicilio, decidiu não entrar. Chamou o elevador e desceu.
Ao passar pela portaria notou o contraste chique com o restante do prédio. Achou esquisito ou, seria apenas aquele corredor que estava entregue as moscas. No momento em que transpôs a porta automática cruzou com o loiro.
- Será que ele...
Voltou rápida. Perguntou para o homem que estava atrás do balcão onde se lia: Informações.
- Por favor.
- Pois não, senhorita.
- Esse rapaz que acabou de entrar no elevador, é o Dr. Valdo Pastore?
- Quem? Luciano?
- Esse é o nome dele?
- Sim, mas não diga que eu falei. Ele é filho do Dr. Valdo.
- Ah! obrigado.
- Quer falar com ele?
- Não, pode deixar, obrigada.
Não precisava de médico. Conhecia-se e conhecendo-se é um passo para se chegar... Onde? Sei lá, em qualquer lugar. Esse era o lema que tomava para si. Achava que com essa atitude ou teoria, ou o que fosse, estava se auto-analisando. Se, estava ou não, também não faria diferença, estava contente consigo mesma.
Olhou para a direita e depois para a esquerda. Nada interessante. Fazer o que, suspirou seu coração afoito. Quem mandará levantar atrasada. Nisso a voz pausada do alto falante anunciou:
- Estação Consolação.
Saia do trem quando foi empurrada.
- Desculpe, disse numa voz desprovida de pressa.
Era novamente o loiro. Mas será possível, pensou preocupada.
- Aonde eu vou encontro esse cara! Que coisa! O que o destino está me preparando?
Perguntou mentalmente ao pisar no degrau da escada rolante.
27.10.06
pastorelli

sexta-feira, 2 de maio de 2008

A implosão da Mentira

AMIGOS:

em tempos de " apropriação" e malversação da obra alheia, circula na internet e no youtube uma versão pobre e estropiada do poema meu A IMPLOSÃO DA MENTIRA, publicado originalmente durante a última ditadura militar. Peço aos amigos que contra ataquem em seus blogs, sites e toda forma eletrônica de comunicação divulgando essa verdade textual.

Em tempo: cuidado com os que dizem que a verdade não existe e que é arte qualquer coisa que qualquer um chama de arte. É mais uma mentira a ser ex/implodida.

Grato pela divulgação, ars

A Implosão da Mentira

Affonso Romano de Sant’ Anna



Fragmento 1

Mentiram-me.Mentiram-me ontem

e hoje mentem novamente.Mentem

de corpo e alma, completamente.

E mentem de maneira tão pungente

que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.

Não mentem tristes.Alegremente

mentem. Mentem tão nacional/mente

que acham que mentindo história afora

vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem.Mentem e calam. Mas suas frases

falam. E desfilam de tal modo nuas

que mesmo um cego pode ver

a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil

e para alguns é cara e escura.

Mas não se chega à verdade

pela mentira, nem à democracia

pela ditadura.



Fragmento 2

Evidente/mente a crer

nos que me mentem

uma flor nasceu em Hiroshima

e em Auschwitz havia um circo

permanente.

Mentem. Mentem caricatural-

mente.

Mentem como a careca

mente ao pente,

mentem como a dentadura

mente ao dente,

mentem como a carroça

à besta em frente,

mentem como a doença

ao doente,

mentem clara/mente

como o espelho transparente.

Mentem deslavadamente,

como nenhuma lavadeira mente

ao ver a nódoa sobre o linho.Mentem

com a cara limpa e nas mãos

o sangue quente. Mentem

ardente/mente como um doente

em seus instantes de febre. Mentem

fabulosa/mente como o caçador que quer passar

gato por lebre. E nessa trilha de mentiras

a caça é que caça o caçador

com a armadilha.

E assim cada qual

mente industrial? mente,

mente partidária? mente,

mente incivil? mente,

mente tropical?mente,

mente incontinente?mente,

mente hereditária?mente,

mente, mente, mente.

E de tanto mentir tão brava/mente

constróem um país

de mentira

-diária/mente.


Fragmento 3

Mentem no passado. E no presente

passam a mentira a limpo. E no futuro

mentem novamente.

Mentem fazendo o sol girar

em torno à terra medieval/mente.

Por isto, desta vez, não é Galileu

quem mente.

mas o tribunal que o julga

herege/mente.

Mentem como se Colombo partin-

do do Ocidente para o Oriente

pudesse descobrir de mentira

um continente.

Mentem desde cabral, em calmaria,

viajando pelo avesso, iludindo a corrente

em curso, transformando a história do país

num acidente de percurso.



Fragmento 4

Tanta mentira assim industriada

me faz partir para o deserto

penitente/mente, ou me exilar

com Mozart musical/mente em harpas

e oboés, como um solista vegetal

que absorve a vida indiferente.

Penso nos animais que nunca mentem.

mesmo se têm um caçador à sua frente.

Penso nos pássaros

cuja verdade do canto nos toca

matinalmente.

Penso nas flores

cuja verdade das cores escorre no mel

silvestremente.

Penso no sol que morre diariamente

jorrando luz, embora

tenha a noite pela frente.


Fragmento 5

Página branca onde escrevo. Único espaço

de verdade que me resta. Onde transcrevo

o arroubo, a esperança, e onde tarde

ou cedo deposito meu espanto e medo.

Para tanta mentira só mesmo um poema

explosivo-conotativo

onde o advérbio e o adjetivo não mentem

ao substantivo

e a rima rebenta a frase

numa explosão da verdade.

E a mentira repulsiva

se não explode pra fora

pra dentro explode

implosiva.


(Poema publicado no JB em 1984, quando do episódio do Rio Centro e em diversas antologias do autor. Está em “ Poesia Reunida” L&PM, v.2)

poema - pizza média



pizza média


sobram cinco pedaços
dos oito
que saíram
derretendo

descansa na mesa
o coração fatiado

minha mãe me ensinou
a guardar na geladeira

pode ser que eu tenha fome
fora de hora
amanhã
ou daqui a três dias

se tenho pressa
levo ao microondas

o coração requentado

se tenho tempo
levo ao forno

pode ser que eu tenha fome
daqui a três anos

minha mãe não me falou
nada sobre isto

mãe não gosta
que filho coma
nada estragado

o coração embolorado

pode ser que eu telefone
e quem sabe
ainda tenha direito
a serviço de entrega

e quem sabe
eu peça

o coração
meio a meio


AL-Chaer

Diante de ti - Max Martins

Diante de ti
Max Martins*


Floresta de sangue - O aroma
ainda detém-se entre os arbustos lavados.

De um ramo a outro recompõe-se amarelo o segredo: ORAR
jogar pedras
palavras para o céu
para proteger-me.

E infundir silêncio nesta mão de madeira escrevendo o caminho.

Caminho por ti.
Caminho no tomo sombrio de uma bibliografia nervosa.

Tua frente é o que sabe melhor o não dito
(de onde segue este rio e a noite obediente)

Colocaram uma estrela trágica no vinho do beijo,
no fôlego com o beijo, na tua boca do cântico
dos cânticos
destes anos.
O tempo cavou o milagre do tempo e do ritmo. A língua
foi a origem do mundo. À Rainha-mãe da água e das ondas,
do poema do aroma.
E à dissolução do amor na debulha dos grãos.

Do zênite da boca ao papel suado da terra
crescem os mamilos da rosa. Arfam as pétalas sangüíneas.
Na messe do outono do galo o aroma desmaia.
Dói-me feliz o que ainda ignoro - diante de ti.

*Max Martins, poeta paraense, às vésperas de completar 82 anos

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