sábado, 2 de fevereiro de 2008

Para Olegario Schmitt

Conheci o Olê como acho que conheci todos os que aqui estão: pelas listas literárias.

De cara gostei dele. Gosto do seu jeito carinhoso e despachado.

Conversávamos às vezes e infelizmente mesmo ele mudando-se para Sampa, creio que só nos vimos uma vez, quando ele veio me fazer uma visita.

Mas a generosidade do Olê, não depende da constância da convivência, ele e eu (nossa soma de nós) é exemplo do que o Távola fala em Afinidade.

Sempre que precisei de um help ele estava a postos. Isso é impressionante, mesmo estando afastados um do outro, Olê nunca me disse não.

Certa vez solicitei aos poetas (creio que ainda na Escritas ) acrósticos voltados para crianças, com temáticas de infância. Olê e Lau, coincidentemente ambos gaúchos mandaram-me suas contribuições.

São deles os três poemas bonitos e sapecas para os professores brincarem com as crianças qu publiquei em meu Caderno de Assessoria Pedagógica, vol 3, Paratodos- História. São Paulo: Scipione, 2004, p. 40. Cito aqui os dois de autoria do Olê:




Beijo doce
Alma clara
Lambo os lábios
Amo a bala!





P
us meu sonho
Inacessível
Preso a um fio
Alto voava





Eu gosto muito do Olê e do que ele escreve, fotográfa e produz na rede, mas seu poema (que na verdade é uma série de 3 poemas) pujante e que desde a primeira vez que li foi-me um soco no estômago é gilda, a história de uma infanta nada infantil, segue:

gilda
a história de uma infanta nada infantil


gilda, Seus Olhos e Seu Sorriso

era uma nega fulô
à qual chamavam de gilda.
e para ela rir gostoso
os três meninos faziam-lhe cócegas:
um na sola dos pés,
o outro no sovaco,
e o outro na barriga.

depois um dedo no umbigo,
catar piolho na floresta miúda de pelos...
e aquele cheiro
de fruta suculenta e úmida
enchendo o ar
enchendo os sentidos
enchendo as cuecas...

em troca
eles lhe davam
as suas sementes.

e ela lhes devolvia
o seu olhar vazio
e o seu sorriso
sem dentes.





gilda e o Cobertor

gilda foi para a capital com a família
ajudando a inchar a barriga
do cinturão da miséria.

gilda sem sobrenome,
gilda inócua e sem história.

para seus pais
era mais uma pedra
sobre a barriga,
mais uma barriga
sem pedra.

gilda, por ser tão nada,
até de enterro foi poupada
e agora é uma ferida
soterrada pelas pedras.

doze andares de concreto
da construção demolida.
um para cada ano
de sua vida sem alento.

eis a anja tosca agora tapada
por um cobertor ainda mais frio
do que não teve em vida.

gilda nunca ganhou aquilo que não havia:
amor numa barriga vazia
ou ajuda dessa gente sombria.

sob os entulhos ninguém procurou
aquilo que não sabia existir...

gilda, esquecida,
teve apenas o trabalho de sorrir
com seu sorriso sem dentes,
fechar os seus olhos vazios
e morrer de frio.





gilda e as Sementes

morreu gilda
com as sementes dentro
e ainda vivas

ai, aquela neguinha fulô
e seu sorriso sem dentes
ai, aquela neguinha fulô
e seu corpo doente.

gilda dava aula de sacanagem
sem nunca ter ido à aula.
gilda era crack
em beberagem
e em enforcar
suas bonecas quebradas
e atirá-las do alto
dos seus doze anos.

tão baixinho gilda estava
que nem se ouvia o barulho
do seu corpo caindo
do seu corpo fodendo
desmaiado.

e sobre tudo pairava
ainda o seu sorriso sem dentes
como que para mostrar
que não era ela o doente.

eram quatro crianças
que não brincam de roda.

os três fazem um círculo
e fumam mais uma pedra.

esquece-se da fome
esquece-se de gilda
esquece-se do grio.

esquecido
mais um dia nasce
e os olhos não vêem mais nada.

In: O Amor & Outras Coisas Que Coçam, Ed. do Autor, 2003.



Olegário Schmitt, poeta nascido em 20/08/1976, em Santa Maria, RS, na terra da vovó Alda que começou a escrever e a ler mais ou menos aos 90 anos. Olê publicou: No pé da letra, RJ: Blocos, 1999 e O Amor & Outras Coisas Que Coçam, Ed. do Autor, 2003.

Um comentário:

OleSchmitt disse...

Frôzita, gratíssimo pela homenagem.
Fiquei bastante feliz também pela postagem dos acrósticos, que eu tinha perdido quando meu HD explodiu.
E até da Vó Alda você lembrou, se ela sonhasse o sucesso que faz ainda hoje...
E até a gildazita taí, pobrezita, tão verde-amarela...
Ai, agora fiquei faceiro.

Obrigado e um beijão babadOle