quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Afinidade

Na minha sanha detetivesca de reencontrar velhos amigos escrivinhadores que fiz ao longo de 11 anos de rede, ontem foi a vez do Caio Martins.


Caio foi, como Carlos Seabra do antigo Anel de poesia, um contato que nasceu pela poesia: ambos encontraram algum poema da Frô ou dos trocentos heterônimos (quem lembra dessa fase a la Pessoa) e foi daí que passamos a prosear. Durante muitos anos correspondemo-nos, mas mesmo morando tão próximo (ele vive em São Caetano), nunca conseguimos nos encontrar...


É, a rede tem desse tipo de amizade 'nunca te vi sempre te amei', tão perto, tão longe.


Bem, mandei um mail para um antiquiquíssimo endereço que tinha dele no meu antiquiquíssimo Plaxo e não é que era o mesmo!


Dele recebo a menção à Afinidade, numa enxuta e significativa mensagem:


" Frô!

De vez em quando, tem seriado de tsunami na vida da gente, podem durar alguns anos. E às vezes esquecemos que, mais que sobreviver, temos de viver. Um dia, aprendo.


Mas, há um poema do Arthur da Távola, " Afinidade", capaz de descortinar por que, apesar do tempo, seguimos papeando do ponto em que paramos. Dias a mais, ou a menos, no fundo pouca coisa tem sentido sem ela.


O resto, é o tempo eternamente roendo a corda.

Abração.

Caio."



Passo a entender, o porquê das permanências, o porquê desse blog ser tão especial e tão necessário e acho que Afinidade sintetiza bem a razão de existir do Poetas Lusofonos...


Segue o texto de Távola para relembrarmos:




Afinidade
(Arthur da Távola)

A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil, delicado e penetrante dos sentimentos. É o mais independente.

Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, as distâncias, as impossibilidades. Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto no exato ponto em que foi interrompido.

Afinidade é não haver tempo mediando a vida. É uma vitória do adivinhado sobre o real. Do subjetivo para o objetivo. Do permanente sobre o passageiro. Do básico sobre o superficial.

Ter afinidade é muito raro. Mas quando existe não precisa de códigos verbais para se manifestar. Existia antes do conhecimento, irradia durante e permanece depois que as pessoas deixaram de estar juntas. O que você tem dificuldade de expressar a um não afim, sai simples e claro diante de alguém com quem você tem afinidade.

Afinidade é ficar longe pensando parecido a respeito dos mesmos fatos que impressionam, comovem ou mobilizam. É ficar conversando sem trocar palavras. É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento.

Afinidade é sentir com. Nem sentir contra, nem sentir para, nem sentir por, nem sentir pelo. Quanta gente ama loucamente, mas sente contra o ser amado. Quantos amam e sentem para o ser amado, não para eles próprios.

Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo. É olhar e perceber. É mais calar do que falar, ou, quando é falar, jamais explicar: apenas afirmar.

Afinidade é jamais sentir por. Quem sente por, confunde afinidade com masoquismo. Mas quem sente com, avalia sem se contaminar. Compreende sem ocupar o lugar do outro. Aceita para poder questionar. Quem não tem afinidade, questiona por não aceitar.

Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças. É conversar no silêncio, tanto nas possibilidades exercidas quanto das impossibilidade vividas.

Afinidade é retomar a relação no ponto em que parou sem lamentar o tempo de separação. Porque tempo e separação nunca existiram. Foram apenas oportunidades dadas (tiradas) pela vida, para que a maturação comum pudesse se dar. E para que cada pessoa pudesse e possa ser, cada vez mais a expressão do outro sob a forma ampliada do eu individual aprimorado.


beijos
Frô

2 comentários:

Anderson disse...

Pois bem, Frô.

Que esza afinidade que aproximou a muitos de nós em épocas diferentes possa ser cultivada neste espaço.

Parabéns pela iniciativa... Estarei por aqui, como se em casa.

Beijos


Anderson Santos

Frô disse...

Pois cê sabe que a casa é sempre sua, nossa barraco é assim, escancarado, cabe coração de poeta de tudo que é canto da Flor do Lácio, basta como diz a Ivy, limpar os pés antes de entrar :)
beijinhos