quarta-feira, 12 de março de 2008

ESGOTO


em algum lugar essa rua acaba

num beco sem saída

e agora tem grama de cada lado

da rua

e o sol ilumina e os pássaros piam

e a brisa não traz cheiro de fumaça

e a rua encontra outra rua

que atravessa outra mais

e mais duas se cruzam

e agora há paz nessas ruas

mas não faz muito tempo atrás

que os judeus encurralados

no gueto de Varsóvia

ouviam

gritos, berros, vidros quebrar,

viam

sinagogas incendiadas,

lojas arrasadas,

escolas fechadas,

botas alemãs e a cruz gramada

e no labirinto do gueto

os mais valentes em subterrâneos

cochichavam a luz das velas

e planejavam o levante

enquanto o bebê chorava

enquanto balas crivavam as janelas

e alguém da família morria em agonia

e a mãe fala::

“espera mais um pouco meu filho!”

e atingida de morte murmura:

“no céu te encontra!”

túneis cavaram, como ratos viveram

labirinto de vida ao labirinto do esgoto

de Varsóvia

mil lutaram, crianças e velhos,

morreram,

gueto arrasado, poucos ratos escaparam,

o sol se põe, nenhum ruído,

as ruas se calam,

a noite é calma,

uma criança chora, risadas,

tudo silencia,

o esgoto labirinto

por baixo do asfalto

ainda vive.


Iosif




2 comentários:

Suo Jure - Viva Voce - Sol e Literatura disse...

Impressionante esse soneto que abraça a tremenda agonia cinza da humanidade desavinda... negra condição de vida que lograda nos seus mais direitos elementares consumiram muitas vidas por preencher.
Sonetos como este são bem-vindos para lembrar os momentos de facínora que o mundo constatou e viu...

maria fro disse...

Sim é preciso lembrar sempre, porque os revisionistas querem fazer crer que o gueto de Varsóvia é ficção.

E é preciso ver se não repetimos tais barbáries contemporâneas com outros povos guetizados hoje em dia....