quarta-feira, 13 de agosto de 2008

silêncio


poucas luzes pequenas

palavras sons quase

inaudíveis


uma chuva fina na janela


pernas trespassadas por

pernas o ardido do vinho bocas

desgovernadas


vertigens de prazer descerradas dos olhos


corpo dentro de corpo línguas

avermelhadas soltas

pela casa


as paredes desfazendo se nas mãos



noite vagarosa cobrindo a janela


pequenas luzes poucas

palavras




Adair Carvalhais Júnior

biografia XXXI - esperança



agora já são grandes Pedro e

Alice e morreram as duas

árvores que

plantei


perderam se no

mundo os poucos

poemas que

escrevi esvaziaram


se de mistérios as

noites

de

solidão


o corpo ocupa se cada

vez mais das marcas

do tempo a chuva já não

incomoda procuro no



inferno das

ruas um

enorme

silêncio


sonhos perscrutam a

morte fraquejam logo

de manhã dói olhar para


frente



Adair Carvalhais Júnior

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Réquiem

© mauricio rosa

Não me digam que o tempo derramou

Razão nas mazelas dos dias perdidos;

Sei, pela janela do meu desatino,

Que a vida, acossada, desacorçoou!

Apenas sementes dormentes ficaram

E sob mãos vadias entregues perecem...

O sol já não brilha e a lua abortou

O feto perfeito que traria ao mundo!

Não me digam que os olhos voltarão

A enxergar fartura neste campo insípido!

As rosas murcharam, presas na janela,

À espera da rega que alguém negou.

Eu não tenho pressa porque não adianta

Fustigar o passo sem ter onde ir...

Dó não tenho ou dúvida, ilusão ou fé,

Nada existe ao lado que valha guardar.

Partirei sozinho como um dia vim

Sem gestos, querências, pavores, sem voz...

Louco e incauto fui e sem me aperceber

Encalhei os sonhos no areal sem fim!

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

paisagem
© mauricio rosa

ali onde descansa a velha estrada
de angústias carcomida, perfilada
como se ainda o reino hospedasse
e toda essência eterna fosse nada
viveu naqueles tempos um menino
que asas dava ao sonho peregrino
de desvendar segredos ver a fonte
donde vazava o sol e deus morava.
chamavam-no poeta e o silêncio
ao som de sua lira e sob a espada
da sua sapiência aquietava
recordo quando avisto a paisagem:
ali onde descansa a velha estrada
a exatidão dos homens pernoitava!

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Nós


Já não há nada a dizer.

Estranhamente os motivos
perderam o sentido,
fragmentados em migalhas
espalhados pelo tempo.

Asta Vonzodas

terça-feira, 5 de agosto de 2008

sem título
© mauricio rosa

seremos tão eternos quanto sós
e dentro do que formos, vagos, nus,
os nossos sentimentos sorverão
o peso que permeia nossa cruz!
diz, quanto sofrimento cuspirá
o mundo nos nossos olhos azuis?
centenas de milhares talvez mais
- o céu da eternidade nos dirá! –
e nada mais senão um verso frio
o nosso epitáfio guardará:
passamos, como o raio o sonho e o rio
depressa, de repente, rumo ao mar...
alguns aplaudirão, outros com frio
as dores tentarão agasalhar.

sábado, 2 de agosto de 2008

31 – A Dama do Metrô


Aureliano saiu batendo a porta. Malu não deu importância, já estava cansada dele. Estavam juntos mais de dois anos. Aureliano tornava-se chato, um porre na concepção dela. Dizia-se apaixonado, queria casar, se separar da mulher, divorciar e outros carvalhos a quatro. Malu não aceitava. Além do que, Aureliano não tinha a abrangência que ela tinha de ir além, e como todo burguês, Aureliano volta e meia caia no mamãe e papai. Para Malu isso era a decadência. Ansiava mudanças, coisa que ele não via com bons olhos. Toda vez em que propunha um jogo diferente, mesmo envolvendo apetrechos sexuais, era por ele rechaçado.

Aureliano chegou a ameaçar suicídio. Não acreditava que fosse capaz de tal ousadia. Molenga como era, até covarde, medroso, não declarava mas tinha pavor das conseqüências. Malu rezava para que voltasse para a esposa. Malu enxergava através do olhar concupiscente toda a ilusão que se dizia amor por ela.

Na verdade, Aureliano amava a esposa, os filhos, a vidinha melodramática burguesa em que fora criado. Não queria destruir o mundo que ele não conseguia ver. Aureliano não entendia por mais que ela tentava lhe explicar. Deveria descobrir por ele mesmo. Por isso, decidiu que aquela seria à última vez que se encontravam.

Cansada, alongou o corpo sinuoso e nu por entre os lençóis propondo a sim mesma não cair mais na lábia desonesta dos homens. Aureliano fora o primeiro e o último. Não renegava os momentos que passara com ele, mas nunca... Isto é, não é aconselhável dizer nunca faço isso ou aquilo, pois sabia por experiência própria que acabaria fazendo, mas tentava ou dizendo melhor, não se deixaria novamente ser levada pelo aspecto físico sem antes, conhecer o interior dos homens.

Nisso a imagem do loiro tomou conta da sua visão. Por onde andará ele, perguntou ao abrir o chuveiro. A água gostosa, morna, lanhou sua carne numa suave e excitante massagem reconfortando-a por completo. Terminado o banho, se vestiu, fechou o apartamento, desceu o elevador, passou pela recepção, deixou a chave com o recepcionista e ganhou a rua ensolarada pensando como fisgaria o loiro.

27.11.06
pastorelli