domingo, 27 de janeiro de 2008

Conto / Chave de cadeia

No lançamento da Antologia Horizontes, em Santos, em 1999, uma noite inesquecível, foi quando conheci esse pessoal maravilhoso, por isso coloco esse conto - ( conto foi escrito, quando o pessoal de vários cantos do Brasil estava se preparando para ir a Santos para o lançamento da Antologia) -para matar a saudade daquela noite fenomenal.
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Alô... Alô... Al... putz grila... não sei porque o Al tem celular, a bateria tá sempre no zero... e eu aqui, em Santos, depois de vir de TAM até Sampa, tomar outro ônibus da Praia Grande para cá depois que alguém me disse que Praia Grande ficava em Santos e eu acreditei... caramba... será que o Al tá brincando?

-Vamos ver... não... vira aqui motorista... é aquela delegacia lá, tá vendo o aglomerado?
- O Sr. vai lá?
- Vou, por que?
- Sei não, tem um bando de pirados lá. O delegado é meu primo e me ligou morrendo de rir.
- Rir? de quê?
- Sabe, uns malucos chegaram na cidade e no mesmo instante a polícia já tava esperando eles. Os políciais disseram que eles tinham assaltado um banco e um mendigo... só que o cara não era mendigo, era um deputado de Uberlândia que estava dormindo numa praça lá, TubAL Vilela, me parece, depois de ter tomado um goró e resolveu dormir lá mesmo.
- (Meus Deus! É verdade ...) Pode parar aí moço...
- O Sr. é amigo deles?
- Sou. - O Sr. vai me assaltar?
- Não! Que idéia...
- Quanto é?
- Nada não, moço...É de graça. Senão depois o Sr. me põe pra ouvir um tal de Pastorelli que fica cantanto marchinhas o dia inteiro... não, é de graça.
- Tá bom. E como está o Santos?
- Perdeu pro Botafogo. Mas acho que um novo jogador vai resolver.
- Ah é? Compraram quem?
- Um japonês, ou será um macedônio, chamado Leminski.
- (Meu Deus...) Tá jóia... sucesso hem...
- Moço, mais uma coisinha.
- O que é?
- Se quando o Sr. for embora e me vir, não manda eu parar não, tá?
- Tá, colega, tá...

Apalpei os R$4.000,00 reais da penhora do autógrafo do McCartney (ahhhhh... snif...buááááá...), que deixei no bolso, caso me roubassem a carteira e entrei na delegacia. Os outros R$3.000,00 eu consegui com a Mariângela na manhã da viagem com o seguinte argumento:
- Meu bem, são quatro da manhã... sexo ou viajo para Santos?
- Não esquece de levar o pulôver...

Tinha uns sujeitos na porta, alguns fotógrafos que me perguntaram se eu era o Doutor Douglas. Disse que não, que era o Carlão. Um perguntou: veio jogar no Santos? Gargalhada geral... nem liguei. Apenas dei um singelo bico na sua canela e ele disse: aiii... é beque.

Chamei o delegado que veio descascando uma laranja com os dentes.
- Fala.
- Er.. Rãm.. Boa tarde. Vim para pagar a fiança de um pessoal de...
- Ah... os doido.
- Perdão...
- Ora, aquela turba mais esquisita do que convocação de seleção do resto do mundo...
- Como assim, doutor?
- Ocê desse tamanho e é imbecil?
- (Aquela pergunta me fez pensar por um segundo uma série de acontecimentos desde que o Al me ligou daquele celular maldito:
1) Não ia dar para ir para a Antologia Horizontes porque a construtora me cobrou juros absurdos pela obra do meu apto. que era para ser entregue em dezembro de 98;
2) Penhorei meu autógrafo do McCartney que eu havia conseguido no Rio depois de me passar por flamenguista e dar R$200,00 pro porteiro do Copacabana Palace;
3) Meu celular tocou no vôo para São Paulo e quiseram me jogar lá de cima com poltrona e tudo sem sequer ter uma explosão;
4) Fui parar em Praia Grande...
5) Lá estava eu, olhando prum delegado que parecia "viado" pois não tirava os olhos do pacote no meu bolso pensando ser... xá pra lá...) Respondi:
- Sou! sou um grande imbecil!
- Imaginava... é sua turma mesmo...
- Perá lá seu delega... o Sr. não pode ofender assim pessoas que já saíram mais de uma vez no Globo.
- Ah é? Assaltaram tantos mendigos assim?
- Não... não... São poetas, escritores de nome, gente com várias premiações no país e alguns até fora daqui... no Globo saiu o site onde se dão as trocas de poemas.
- Sáite? É uma seita dessas piradas de hoje? Ah... por isso que uma tais de Karina, Márcia e Lilia ficaram me falando uns negoço esquisito.
- Não... não... Mas, posso vê-los? Eles estão bem?
- Sim. Nós os levamos lá pra Vila Belmiro. Sabe como é né... a cadeia tá cheia desde o último jogo contra o Flamengo...
- Vila Belmiro?
- É. Deixamos eles no gramado a céu aberto.
- Por que?
- Óia, tinha uma radialista que não parava de falar. Tinha uma tal de Frô - óia cuidado com essa que às vezes ela acha que é outra pessoa - que fica falando umas besteira de sexo, sexo, urticária... eu hem. Uma senhora chamada... chamada...
- Asta!
- Isto!
- Não, Asta!
- Isto mesmo, eu quero dizer. Fica me dando lição de moral, que a delegacia tá suja, que as janelas estão quebradas, que eu preciso organizar, que isso, que aquilo...
- (Meritíssima...) Sim é essa mesmo.
- E sabe moço, mais uns tantos... cada um mais esquisito que o outro. Tem um menino, bonitão sô (êpa...), chamado Lucas com uma mochila do Mickey, um tal de Dr. Fernando que não parava de perguntar onde fica a Praia Grande (aaahhh!), um alemão, um comendador, uma tal de Pat que só fica gritando: poder para o povo! poder para o povo! Olha tem até um cara que só fala de morte e diarréias na maior naturalidade! Nem quando teve um baile aqui de estivadores do mundo inteiro eu vi tanta gente esquisita.
- Ô seu delegado, pega leve... estivadores? A turma é instruída. São estudantes, profissionais do mais alto gabarito e que fazem da poesia uma ferramenta de protesto e de propagação do amor entre os homens.
- Poesia? Amor entre os homens? Hum... isso é coisa de "viado".

Percebi que argumentar com o homem era impossível. Apressei-me em assinar o alvará de soltura e, após conferir o nome de todos, saí em busca da Vila Belmiro. Notei que não constava o nome do Félix e voltei à delegacia. O delegado parecia que me esperava. Sentadão me disse:
- Sabia que ocê é imbecil mas nem tanto. Vai deixar a turmar aqui mesmo e vazar, não é?
- Não... Não senhor. É que não vi o nome do Sr.Félix.
- Ah... um que disse ter vindo da terra de Camões? Baiano, né? Camões não é aquele cara que fudeu o Banco Econômico? Camões de Sá?
- Não... Não senhor (se não amasse minha turma já tinha enfiado uns três socos naquela pança de cerveja com álcool...) - Camões é um poeta português...
- Ah é? E por acaso eu tenho que aguentar vascaínos aqui? Ele tá no hospício.
- Hospício? mas... por que?
- Ué, o homem disse que vinha do além-mar. Quem vem do além pra mim é fantasma. O homem tava vivo só pude achar ele doido.
- Onde fica o hospício?
- Na Praia Grande...
- (Nâo!!!!!!!!!!) - Saí correndo e ele me pegou pelo braço.
- O Sr. é de onde?
- Er... Eu sou de Goiânia.
- Goiânia? Nossa... por acaso o Sr. não tem aí um autógrafo do Zezé de Camargo e do Luciano?

Paguei a fiança peguei o alvará de soltura e saí o mais rápido possível dali. O mesmo taxista que havia me levado me viu saindo chorando da delegacia, virou o rosto depressa e saiu correndo assoviando o hino do Santos. Peguei outro táxi e rumei para a Vila Belmiro. Lá chegando, vi o Al perto do portão de entrada do campo tentando falar com o capitão que os vigiava. Quando me viu, gritou olhando pra trás:
- Gente, o Carlão chegou!! Eu sabia!!! Eu não disse que ele era meu amigo?
- Mostrei o alvará para o capitão que começou a lê-lo de cabeça para baixo. O ajudei humildemente.
- Solta a turma, vociferou.
O Al me pegou pelo braço, me levou para o meio do campo e me abraçou dizendo:
- Valeu, irmão! valeu!
Nisso o celular dele caiu no chão e eu, no limite dos nervos (que não ganharia uma cerveja COM álcool), dei-lhe uma bicuda que o fez atravessar toda a intermediária, perder peso na entrada da área e tocar de leve no travessão, estufando as redes num golaço inconcebível. Do alto da arquibancada um moleque negrinho viu e gritou:
- Você é o novo reforço do Santos?
- Gritei: Sou! Sou! Onde o time está concentrado?
- Na Praia Grande.
- Ótimo! Então vamos já pra lá. Aproveitamos e resgatamos o Félix!!
Carlos Edu
- (arlã() 20/09/99) -

3 comentários:

maria fro disse...

Nossa Carlão!
Tinha me esquecido dessa aventura imagínária, fantástica :0

Você se esqueceu do Joeldo sem intimidade com os frutos do mar, comendo a maravilhosa paella do Vista del Mar, afinal santista como sou, não ia levar os amigos em qualquer birosca...

Tava vendo as fotos do Encontro, que saudades, que saudades...

beijos obrigada por me fazer sorrir

Frô

Carlos Edu Bernardes disse...

Agora nem me lembro mais se foi imagínária...

bzjo

(~()

Frô disse...

Risos, foi um encontro e tanto, inesquecível e produtivo em todos os aspectos, inclusive os literários, rendeu poema, crônica e literatura fantástica, eheheheheh
beijos
Frô