segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Poeta desaparecidíssima: Julieta Lima

Queridos, o bom desse barraco literário é que a gente acha pérolas como essa aqui: Julieta Lima por Eliane Malpighi en um antigo site da Angel Fire....
beijos
Frô
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Seleção de poemas: JULIETA LIMA

Perpetuando a dor na poesia,
minhas palavras trouxe até ao chão,
cantei sem impostura o dia a dia,
uma pedra, uma flor, um astro, um cão...
Minh'alma sempre cheia e tão vazia
é trapo clandestino num porão,
aventureira louca, ardendo fria,
num barco onde vagueia a solidão!
Mas vivo pra cantar os desvalidos,
os velhos que apodrecem tristes, sós,
Meninos sem bercinhos coloridos...
Poetas: Ajudai-me todos vós,
pra que ribombem os ais dos oprimidos
e os povos com mordaça tenham voz!

(in Sonetos Peregrinos)

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Debruça-se um velho
nos dias que foram
Desfia nos dedos
as pedras da idade.
O moço que foi
no moço que passa
As moças que amou
Os passos que deu
e os que não deu
Foi tudo tão breve
inda ontem eu...
Debruça-se um velho
na idade perdida
no pó da idade
Desfia nos dedos
seios de mulheres
Ventres luminosos
Braços
Mãos
Abraços
Foi tudo tão breve
inda ontem eu...
Debruça-se um velho
nos dias que foram
Sobre o chão que o espera
passeia sozinho
Inda ontem eu...
E era Primavera!
Entre sombras nuas
Ai tudo tão breve
inda ontem eu...
Tão lentos os passos
Tão lestos os passos
Tão longas as ruas...

(in O Pão e a Palha)
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Subo ao teu corpo
sem pé nem estribo
só corpo e corpo!
Soltas as armas
abres caminho
Voas
Revoas
sobre a nudez...
No chão caíram
sem timidez
Asas vestidos
No ar coriscam
uivos gemidos
Desces e sobes
arfas transpiras
murmuras gritos
a meus ouvidos
Voltas-me
Viras-me
Corpo e sentidos

(in O Flamengo)

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Eu sou um barco azul por vendavais
sem escota nem adriça a demandar
que reajuste o rumo ou aporte ao cais
e desafia o vento a bolinar
Sem remos vou Nem velas Nem brandais
desatinando as vagas e o mar
namoriscando rochas e areais
passeio onde é vedado navegar
Flapejam as marés quando esvoaço
o sol fica olheirento se me vê
a lua enciumada do meu halo
intimidam-se as aves quando passo
E eu que de barco sei nem ter o Bê
sei que não sou um barco e não me ralo.

(in Os sonetos Peregrinos)
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Beijo ENORME!
Vê?
Beijo enorme
num beijo que não existe
beijo grande
que nem beijo há-de ser
Quem te há-de medir
beijo
Quando as bocas
tremulam como velas
no nojo dos velórios

Ode a mim mesma
Sou poeta
e pertenço à raça infâme
a que chamaram
humanidade
Por isso vedes em mim
tanta hipocrisia
tanta mentira
tanta vaidade...
Lado a lado
com o que vos poderá parecer
a diferença
há apenas ódio
tédio
medo
Indiferença
por tudo o que ouse
ser além de mim
além daquilo que me interessa.
É para mim que vivo
e só por mim choro
e se vos parecer
que me inquieto
ou sofro por alguém
é mil vezes mentira
Porque eu litigo apenas
por tudo o que quero
e apenas pranteio
aquilo que não posso
e o que não tenho
Pois só em meu proveito
me hipoteco e empenho
E se pensais
que por vós me alegro ou compadeço
Eu Minto!
pois por mim e só pra mim
Eu canto
Eu me debato
Eu sinto.
São falsos os meus poéticos depoimentos
sobre o amor
a amizade
a lealdade
e tantos outros metafóricos sentimentos
É mentira
É mentira tudo o que digo ou escrevo
e falsos os aplausos
com que a minha inveja vos saúda
ao acaso
Falsos os meus olhares
de amor e piedade
Pois meus gritos meus urros meus lamentos
vivem prostrados no palco
onde actuam sem público
os meus tormentos
meus vis ressentimentos
as minhas dores
Enquanto os meus sorrisos
não ultrapassam
a graça desgraçada
dos meus humores.
Nasci poeta e humana
Livre e proscrita
Profeta
dos messias que renego
Nasci
poeta
e gente:
Duas vezes maldita.


Biografia
Julieta Lima é uma portuguesa que tive o prazer e privilégio de conhecer através de uma lista de discussão de poesia e literatura e, desde o início seus poemas chamaram a minha atenção, pois não só tratam de temas relacionados ao nosso cotidiano, mas possuem uma característica que eu arriscaria nominar de 'sua marca registrada'.

Ela diz as verdades que sabemos, sentimos e vivemos - porém nem sempre conseguimos admitir e, muito menos exteriorizar -; e o diz sempre de maneira direta e franca. É como se estivesse olhando em nossos olhos, sem qualquer medo de afirmar e reafirmar aquilo que escreve e pensa e pensa e escreve. Inclusive sobre si mesma.

Esta breve introdução é somente para contar a vocês que quando lhe pedi que me enviasse uma biografia, fui deliciosamente surpreendida com a resposta que de modo algum poderia mesmo ser diferente e em cada linha está impregnada da 'sua marca registrada' - razão pela qual não tive coragem de trasnsportar seus dados para a terceira pessoa. Seria como, além de 'descaracterizá-la', 'roubar' de vocês a chance imperdível de conhecer Julieta Lima por Julieta Lima!

A você, Julieta, meu agradecimento repleto de carinho e, 'roubando' o que dia destes você disse ao encerrar um comentário na lista e despedir-se: 'Já agora um beijo em flor'."
Eliane Malpighi


'Quanto a uma biografia, não tenho pedigree, sou uma espécie de cão de rua que passou a vida a fazer de tudo.

Nascida em Olhão em 1949, ao meio dia de um dia de sol. A influência do mar foi determinante de uma personalidade extrovertida, alucinada às vezes. Na escola um grande desinteresse por tudo o que não fosse ler, escrever, recitar. Naquele tempo as meninas da província não precisavam de estudar. Aprendiam a não aprender. Eram quase enclausuradas para que não vissem e ouvissem - a vida.

De nós seis, quatro fomos para o Liceu de Faro. Aquilo era uma temeridade deixar as filhas virgens saltar para um comboio às sete da manhã...

Aos dezoito anos fui secretária numa Agência de viagens em Faro. Ali burilei as línguas estrangeiras que aprendera na escola e passados dois anos fui chefiar o serviço de estrangeiros num Banco também em Faro.

Aos vinte anos tive uma filha. Aos vinte sete tive três gémeas. Quando a família aumentou, tive que repensar a minha actividade profissional. Paralelamente à minha actividade bancária, comecei uma Agência de Seguros e entrei para o imobiliário. Era preciso ganhar muito para gastar muito... Trabalhei tanto que rebentei: Em 1988 perdi o controlo. Pedi a reforma antecipada do maldito emprego, divorciei-me de um maldito marido.

Agarrei nas minhas quatro filhas, nos meus cães e nos meus versos e recomecei Tudo do princípio. Finalmente (1989) publiquei um livro «No Orvalho das Horas» e comecei a organizar as minhas poesias até então misturadas a balancetes e extractos bancários e cálculos de betão armado. A partir daí escrevo com alguma regularidade.

Já prontos mas inéditos tenho « O pão e a Palha» a «Mulher do Vento» «Sonetos Peregrinos», «Revoltas e Rimas» «O Flamengo», «Poemas do Nilo», «Os anciãos» - em poesia; «Porta Sim, Porta Não» - Contos da minha terra; Teatros para crianças e contos para crianças em verso tenho vários trabalhos; Tenho um romance a mais de meio - «Maria Picança». Estou a seleccionar mais dois inéditos « Poesias de Outra » e «Odes à Ira».

Estou a pensar publicar mais um ou dois livros. Dá-me um grande gozo ver aquilo que escrevo em forma de livro...
Obrigada por tudo.
Um beijinho para si e até sempre.
Julieta Lima'

5 comentários:

Soledade disse...

A auto-biografia é bem ao estilo da Julieta. Saudades daquela irreverência.
Bonita esta homenagem que você lhe faz, Frô.
Talvez consigamos encontrá-la.

hfm disse...

Saudades, mesmo, Frô. Vou ver se consigo que ela aqui apareça.

maria fro disse...

Querida Helena,
Viva ela está e continua com o mesmo e bom velho jeito Julieta de ser.
Estava googando para ver se encontrava um blog dela ou algo do gênero e encontro-a fazendo a seguinte intervenção sobre as eleições nos EUA em o Público:

"17.01.2008 - 13h43 - julieta lima, Corgo da Zorra - Almancil
Pois claro que os senhores têm medo desta mulher, sempre tiveram medo das mulheres, por isso as têm reprimido desde os primórdios. Espero que Hilary ganhe, não por ser mulher, mas por ser um grande ser humano. Se for Obama, ainda melhor, é um passo. Mulheres e pretos começam a sair do ghetto... estamos no mesmo nível, amigas mulheres e amigos pretos. Força. Vergonha para quem se apregoa tão avançado e depois vai enterrar os seus cobardes preconceitos no papelinho que ninguém vê dentro da urna de voto. USA??? Que seja o maior país do mundo a dar o exemplo, para variar: um bom exemplo!!"


É claro que um português mal-humorado respondeu-a atravessado. Queria acompanhar a contenda pra ver se ela dava o troco e quase fui lá e disse, Julieta Lima, procura-se!
Conversando com Edu, sobre o episódio ríamos muito, porque ele acha Hilary, a Rosinha Garotinho dos estadunidenses, mas Julieta é unanimidade quando se trata de falar de sua bela poesia.
beijos

maria fro disse...

REI

Em teus lábios: deleite
e a embriaguez
do suco
de minhas uvas.
Exaustão
em meu abraço: dádiva
e lesta a busca
das toalhas quentes
no gozo da pele macerada..
E como um rei te recostei
no veludo da almofada
Como a um rei te jurei fidelidade
como de um rei recebi o anel
te votei futuro
e me curvei à espada

(Julieta Lima)

Fatima disse...

Adorei a biografia de Julieta Lima, fico feliz por ela continuar a escrever... e por existir e eu a ter encontrado hoje, aqui...
Em 2002 defendi a minha tese de doutoramento (na Universidade de Varsóvia, reconhecida em 2003 pela UTAD - Portugal), que publiquei com o título: A BRUXA E A POESIA - a bruxa e elementos do seu universo na poesia feminina portuguesa do ´século XX. Seleccionei 13 poetisas e todas as obras que encontrei de cada uma dessas 13 mulheres. Entre poetisas como Natália Correia, Sophia ou Florbela... estudei também e analisei Julieta Lima. Eu adorava cada poema do livro No Orvalho das Horas. Poemas lindíssimos, inacreditáveis. Nunca compreendi como é que não é famosíssima. Se tiver o contacto, envio a tese (agora publicada aqui, em Angola, pela editora Chá de Caxinde). Beijinhos