quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

a tarde adoecida

um dia vi a minha mãe nua, molhada de março com os cabelos a escorrer o calor da tarde. ao mesmo tempo que crescia o desejo pedia ardentemente a morte por ter visto tanta beleza. depois corri desenfreadamente sobre os picos das piteiras como um fauno, atravessando o rio-seco que vai até à samba pequena no bairro de santa bárbara. comia mabangas cruas com o sangue delas a queimar-me os lábios e salgava-me na água brincando ao mesmo tempo com os caranguejos como a sombra a fugir de mim. regressava sempre a casa em jogos lúdicos com o cão pandita nheru rodopiando a folha de mamoeiro ao pé do tanque da remissão da culpa. a minha mãe acariciava-me as orelhas e segredava-me palavras que ainda hoje me esforço por as ter nas minhas mãos. envergonhado aninhava-me na concha do seu corpo como se quisesse renascer na explosão de relâmpagos que iluminava a tarde adoecida.


josé félix

3 comentários:

Lau Siqueira disse...

Mais um bom texto,m ZéFelix!

maria fro disse...

"a minha mãe acariciava-me as orelhas e segredava-me palavras que ainda hoje me esforço por as ter nas minhas mãos."

valeu a pena o esforço elas estão aí na lavra de tua poesia....

José disse...

lau e frÔ

o cruzamento de emoções, o trabalho da escritura, é a papa com a qual iniciamos a viagem real / onírica de um poema.

eu fic o grato pelos comentários

josé félix